Rafael Bedoni, sócio da Make me Proud: “A IA não cria sozinha. Quem quer criar somos nós.”
Compartilhar
A inteligência artificial já começa a redesenhar processos na produção audiovisual, ao mesmo tempo em que budgets mais pressionados e a multiplicação de formatos desafiam produtoras a encontrar novas formas de ganhar eficiência sem comprometer o craft. É nesse cenário que nasce a Make Me Proud, produtora criada pelos produtores executivos Rafael Bedoni e Pedro Dumans com uma estrutura pensada para integrar agilidade, inteligência de produção e ambição criativa.
Em entrevista ao VoxNews, Rafael Bedoni, sócio e produtor executivo da empresa, fala sobre os impactos da IA no audiovisual, defende modelos híbridos de produção e explica por que a tecnologia deve estar a serviço da ideia, e não apenas da redução de custos. O executivo também aborda as mudanças na relação entre orçamento e qualidade e o avanço das fronteiras entre publicidade, conteúdo e entretenimento.
VoxNews – Como a inteligência artificial está mudando, na prática, o trabalho das produtoras e quais etapas da produção publicitária vocês acreditam que serão mais impactadas?
Rafael Bedoni – A IA já está mudando bastante o trabalho das produtoras, principalmente na pré-produção, no planejamento e na pós-produção. Hoje conseguimos visualizar ideias, criar referências, testar caminhos, desenvolver cenários e antecipar soluções antes mesmo de chegar ao set. Na pós, ela também amplia muito as possibilidades de composição, tratamento e criação de imagens.
Ao mesmo tempo, acredito que a IA é mais uma ferramenta a serviço da criatividade. Ela está evoluindo muito rápido e não sabemos onde vai chegar, mas ainda está distante do craft que buscamos em muitos aspectos. Por isso, seu uso precisa ser uma escolha criativa, e não simplesmente uma forma de reduzir custos.
Da mesma forma que a IA democratiza a produção audiovisual, existe o risco de uma certa homogeneização da linguagem e das marcas perderem identidade e relevância no coração do público. Porque o que diferencia um bom filme não é a ferramenta, é a criatividade, a linguagem, a originalidade e a visão das pessoas envolvidas.
Hoje, os processos que mais funcionam para nós são híbridos. Se um filme depende de uma grande interpretação, por exemplo, ainda prefiro filmar um ator e usar IA para potencializar outras etapas. E mesmo um filme com muitas imagens geradas por IA exige direção, curadoria, pós-produção e bastante acabamento.
A IA acelera muitos processos, mas não cria sozinha, aliás, ela não quer criar nada. Quem quer criar somos nós. O resultado continua dependendo de quem está pensando, dirigindo, fazendo a curadoria e operando essas ferramentas.
No fim, tudo volta para a ideia e para o roteiro. São eles que deveriam determinar quando e como usar IA, e não o contrário.
VoxNews – Com budgets mais pressionados e uma demanda crescente por versões e formatos, como entregar eficiência sem transformar craft e qualidade em variáveis de ajuste?
Rafael Bedoni – O craft está no cuidado com a execução, independentemente do budget. E esse cuidado vem muito das pessoas que você coloca no projeto.
Trabalhar com profissionais e fornecedores altamente qualificados, confiáveis e que sabem encontrar soluções permite ter uma estrutura mais enxuta sem perder qualidade. Essas parcerias são uma via de mão dupla: a gente confia na entrega deles e eles confiam que a produção vai estar presente e dando suporte em todas as etapas.
Para mim, eficiência também passa por ter todos os departamentos alinhados e colaborando de verdade. Quando todo mundo está trabalhando para o filme, o processo fica mais ágil, os recursos são melhor aproveitados e quem ganha é o filme.
VoxNews – Vocês falam em “inteligência de produção” como um dos pilares da Make Me Proud. O que esse conceito significa na prática e como ele muda a relação entre produtora, agência e anunciante?
Rafael Bedoni – Inteligência de produção é saber onde investir. Cada filme tem uma necessidade diferente e tudo começa no roteiro. Tem filme em que o dinheiro precisa estar na locação, em outro no elenco, na câmera, no styling ou na pós. O nosso trabalho é entender onde aquele budget vai aparecer mais na tela, sem perder a essência da ideia.
E quanto mais pressionado o orçamento, maior precisa ser o planejamento. É aí que entra muito da criatividade da produção: encontrar soluções para viabilizar ideias que, num primeiro momento, talvez pareçam incompatíveis com aquele budget.
Para mim, essa é uma das partes mais emocionantes do nosso trabalho. Adaptar a produção à realidade do projeto sem diminuir a ambição do filme. No final, inteligência de produção é isso: usar planejamento, experiência e criatividade para multiplicar o valor de produção.
VoxNews – A produção audiovisual vive uma mudança de modelo, com fronteiras cada vez menores entre publicidade, branded content, entretenimento e conteúdo para plataformas. Como a Make Me Proud pretende se posicionar nesse cenário?
Rafael Bedoni – A Make Me Proud já nasce dentro desse universo. Para nós, esse modelo não é uma mudança, é o padrão.
A relação entre conteúdo e publicidade já está bastante consolidada, e cada vez mais vemos marcas usando o entretenimento de forma inteligente, inclusive criando canais e conteúdos que existem além da comunicação institucional. Hoje as pessoas escolhem o que querem assistir, então é natural que as marcas também precisem criar coisas que as pessoas realmente queiram consumir.
Publicidade e entretenimento têm linguagens diferentes, mas temos diretores que transitam muito bem entre esses dois universos. E isso também acontece dentro da própria produtora: criamos um núcleo de desenvolvimento de projetos independentes, estamos lançando o longa documental O Rei da Noite e coproduzindo o longa de ficção As Aparecidas, previsto para 2027, além de outros projetos em desenvolvimento.
Então não estamos tentando nos adaptar a essa aproximação entre publicidade, conteúdo e entretenimento. A Make Me Proud já foi pensada para um mercado em que essas fronteiras são cada vez menores.
VoxNews – Em um mercado que já conta com produtoras consolidadas e novos players surgindo, onde vocês enxergam espaço para uma nova produtora e qual lacuna de mercado a Make Me Proud pretende ocupar?
Rafael Bedoni – A Make Me Proud é uma produtora totalmente nova, criada por pessoas que vêm de uma escola de produções ágeis e já nasce pensada para as necessidades do mercado atual.
Hoje temos acesso a tecnologias que permitem novas formas de produzir, equipes mais integradas e produções que podem reunir filme, foto, social e conteúdo dentro de um mesmo projeto. A nossa estrutura foi pensada desde o início para trabalhar dessa forma, com agilidade e integração entre os diferentes departamentos.
Ao mesmo tempo, trouxemos diretores de peso, com linguagens muito próprias, para somar craft e um olhar autoral aos filmes.
Acho que nosso espaço está justamente nessa combinação: uma produtora com estrutura e pensamento contemporâneos, mas com muita ambição criativa, craft e linguagem.
