À frente da HZ Comunicação há mais de duas décadas, Thales Flôres acaba de ampliar sua atuação para o audiovisual como produtor executivo de Serendipity, curta de animação brasileiro selecionado para o Los Angeles Latino International Film Festival (LALIFF). Dirigido por Camila Padilha, o filme reúne ainda os produtores executivos Hellen Lailla e João Medeiros-Moraes, é coproduzido pelos estúdios Claroscuro e Pururu Studio e combina uma narrativa sobre encontros, memória afetiva e conexões humanas com uma forte influência da música eletrônica, reforçada pela trilha original do artista alemão Logidy.
Nesta entrevista ao VoxNews, Thales fala sobre a transição da publicidade para a produção audiovisual autoral, as conexões entre comunicação e cinema, as oportunidades para a animação brasileira no mercado internacional e como a trajetória de Serendipity pode abrir portas para novas coproduções e negócios criativos.
VoxNews – O que motivou sua entrada na produção de animação e cinema, mesmo atuando também à frente da HZ Comunicação? Há pontos de conexão entre essas duas atividades?
Thales Flôres – O que me motivou foi sempre a arte, em sua mais pura essência. No meu entender, todo criativo, ao menos em algum momento (na verdade muitos) da vida, sonha em ter um projeto artístico, autoral, caminhando por aí e sendo apreciado no mundo da arte. Existem muitos pontos de conexão, a publicidade tem arte, é arte também, sim, mas estruturada para entregar resultados, focada na performance de produtos, serviços e muitas planilhas. Sempre quis desenvolver, participar, criar e cocriar projetos autorais independentes, voltados integralmente para a arte, onde pudesse explorar sem limites a minha direção e criação artística. Estou muito feliz e realizado em ver e sentir esse momento acontecer depois de tantos anos buscando isso.
VoxNews – De que forma a experiência em comunicação e construção de narrativas para marcas influencia suas decisões como produtor executivo de projetos audiovisuais autorais como Serendipity?
Thales Flôres – A experiência em comunicação e construção de narrativas para marcas influencia profundamente minhas decisões como produtor executivo de projetos audiovisuais autorais, mas não no sentido de transformar uma obra em publicidade. A influência está principalmente na capacidade de compreender como uma história se conecta emocionalmente com uma audiência.
Anos desenvolvendo campanhas publicitárias me ensinaram que toda narrativa precisa ter clareza de propósito, coerência de linguagem e uma proposta emocional bem definida. Ao migrar para a produção executiva de animações autorais, esses aprendizados continuam relevantes. Antes de analisar orçamento, cronograma ou estratégia de distribuição, procuro entender qual é a essência da obra, qual sentimento ela pretende despertar e porque essa história merece existir.
A publicidade também desenvolve uma percepção aguçada sobre público, posicionamento e diferenciação. Em um mercado audiovisual cada vez mais competitivo, essa visão ajuda a identificar os elementos que tornam um projeto singular e relevante, sem comprometer sua identidade artística. Como produtor executivo, busco equilibrar a liberdade criativa dos realizadores com a necessidade de tornar a obra acessível, compreensível e atraente para seus potenciais espectadores.
Em resumo, minha trajetória na publicidade me forneceu ferramentas para compreender o valor da narrativa, da emoção e da conexão com o público. Como produtor executivo de projetos autorais, utilizo esses conhecimentos não para adequar a arte ao mercado, mas para ajudar histórias genuínas a encontrarem sua melhor forma de expressão e alcançarem as pessoas para as quais foram criadas.
VoxNews – O mercado brasileiro tem visto um crescimento da animação independente nos festivais internacionais. Quais oportunidades você enxerga para produtores e investidores nesse segmento?
Thales Flôres – Estamos diante de uma janela rara para o setor brasileiro. A animação independente nacional deixou de ser vista apenas como expressão artística e começou a ser percebida como um ativo intelectual exportável. O crescimento da presença brasileira em festivais internacionais vem acompanhado de um ambiente mais favorável para coproduções, financiamento e circulação global de conteúdo. Além disso, o número de produções de animação registradas no Brasil atingiu seu maior patamar em mais de uma década, demonstrando amadurecimento do setor. A maior oportunidade não está apenas em produzir um curta ou longa premiado, mas em desenvolver propriedades intelectuais originais como por exemplo: Séries para streaming, games, quadrinhos, licenciamento de produtos e conteúdos educacionais. Hoje existe um interesse crescente de parceiros estrangeiros em conteúdos latino-americanos com identidade cultural própria. O Brasil tem se tornado um polo relevante para coproduções internacionais, com aumento significativo dos acordos e investimentos realizados nos últimos anos. As plataformas já não buscam apenas histórias universais. Elas procuram conteúdos autênticos que representem culturas específicas. O que antes era considerado “regional demais” passou a ser um diferencial competitivo. Muitos investidores ainda enxergam festivais apenas como espaços de prestígio. Na prática, festivais funcionam como mercados internacionais. Quando um projeto circula em eventos relevantes, ele ganha visibilidade junto a distribuidores; contato com agentes de vendas; aproximação com plataformas; e possibilidade de pré-vendas internacionais. O prêmio é importante, mas o networking costuma gerar mais receita do que a estatueta.
VoxNews – A participação de Serendipity no LALIFF pode abrir novas portas para coproduções e circulação internacional. Como você avalia o potencial de exportação da animação brasileira hoje?
Thales Flôres – A intenção desse investimento em festivais é justamente essa, apresentar novos trabalhos, novos artistas, novas narrativas regionais e assim movimentar o ambiente de coprodução e amplificar a circulação internacional. Avalio o potencial de exportação da animação brasileira como muito alto e ainda sub explorado.
Há vinte anos, o desafio era provar que o Brasil sabia produzir animação. Hoje, o desafio é transformar reconhecimento artístico em escala comercial. O Brasil possui três vantagens competitivas muito fortes: Narrativas que o mundo ainda não viu, qualidade criativa com custo competitivo e capacidade de trabalhar para múltiplos mercados. Destaco os seguintes pontos principais: folclore pouco explorado internacionalmente; cultura afro-brasileira; narrativas amazônicas; Ficção científica tropical; estética urbana única e diversidade regional enorme.
Comparado aos grandes polos de animação dos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental, o Brasil consegue entregar qualidade artística elevada com custos de produção mais competitivos. Para compradores internacionais, isso é extremamente atraente.
A animação tem uma vantagem enorme sobre o live-action: ela viaja melhor.
Uma série animada brasileira pode ser: dublada em dezenas de idiomas; adaptada culturalmente com facilidade; distribuída simultaneamente em vários países e consumida por públicos infantis e adultos. Isso reduz barreiras de exportação.
VoxNews – A HZ Comunicação pretende ampliar sua atuação para áreas ligadas ao entretenimento, audiovisual e propriedade intelectual, ou a participação em projetos como Serendipity faz parte de uma estratégia mais pessoal de diversificação?
Thales Flôres – Não é em si uma pretenção da HZ e sim minha. Porém, eu como sócio e diretor de criação da HZ, entendo que naturalmente as áreas tenham seus pontos de ligação e fusão, elas se somam. O meu investimento em audiovisuais traz novos horizontes criativos para a HZ e inspiração ao meu time. Assim como as minhas habilidades desenvolvidas há mais de 23 anos à frente da área criativa da HZ também me trazem muitos skills que agora aplico na área de entretenimento. No fim, todos saímos ganhando, e isso é o que mais me interessa. Já estamos colhendo frutos desse investimento com uma campanha de Copa do mundo para a rede de supermercados Supermarket toda produzida em animação, desenvolvida pela HZ em parceria com a Nova Filmes. E fora da agência também já estou trabalhando na produção executiva do meu segundo filme, agora abordando uma temática mais regional. Em síntese penso o seguinte, quanto mais experiências criativas melhores campanhas e melhores filmes, esse é o foco.