A criatividade não termina quando o expediente acaba.

Diego Santana Claudino, diretor de cena da Primo Content Brasil: “Entre o pincel e o REC”

Por voxnews4 min de leitura

Eu costumo me definir (caladinho e pra mim mesmo) como um pintor que faz filmes. Mesmo que, na realidade, eu seja um diretor que pinta. Está na maneira de pensar.

Desde muito pequeno, sempre gostei de desenhar, rabiscar e pintar. Tem um quê meditativo e mágico nesse se deixar levar sem rumo para, de repente, pum… encontrar algo do nada onde nada havia. Obviamente, essa análise do ato veio só depois de mais velho, mas o sentimento eu carrego desde pequenininho.

Esse hobby começou a ganhar vida no comecinho da minha carreira. Eu era um filmaker que meio que fazia tudo: escrevia, dirigia, filmava, editava, produzia os clipes dos meus amigos e qualquer outra coisa que merecesse um REC. Cada vez que tinha que começar um projeto, era um esforço absurdo.

A pintura entrou na minha vida como uma válvula de escape criativa. Hoje em dia, não preciso mais fazer de tudo no processo e a coisa de que mais gosto é a colaboração criativa. Mas, como toda grande verdade na vida vem com uma pitada de ironia, aqui não seria diferente.

Levantar um filme requer uma tropa, um batalhão de pessoas. O que é, assim, um dialogozinho, só com dois atores, facilmente vira uma empreitada de 20 a 30 pessoas. É bom de fazer, mas o processo é inimigo do impulso. É muito exército para quem só queria brincar de ninja de vez em quando. E foi para equilibrar essa balança do esforço que comecei a levar mais a sério os pincéis.

Pintando, sou eu, a tela e um delicioso combate entre a minha intenção e o meu limitado talento. E o “limitado” aqui não é uma pincelada de falsa modéstia. Tá mais para reconhecimento do processo mesmo, pois, se eu já soubesse fazer o que queria fazer, deixaria de ser mágica e viraria reportagem. Pra mim, pintura ou qualquer expressão artística é sobre a magia de se surpreender.

Gosto do lado manual da pintura. Afia o foco. Gosto do registro do histórico na tela, do percurso marcado no destino. Não tem control+z na pintura. O traço “errado” deixa rastro e força a abraçar o erro e torná-lo um passo. Essa certeza da incerteza abre caminho para seguir a curiosidade.

No processo publicitário, a criatividade está a serviço de um objetivo claro. A ironia é que sempre procuramos o inédito, mas quase sempre pelo caminho já visto. Testado. Aprovado. São milhões em investimento e milhares de pessoas envolvidas. Mas a real é que as circunstâncias nunca são as ideais: se sobra verba, falta tempo; se sobra tempo, falta verba. E a matemática das salas de reuniões nem sempre segue a lógica da vida. A certeza de que cada traço é só mais um passo é algo que trago da pintura.

A pintura massageia minha intuição e me permite tomar decisões mais espontâneas no set, buscar esse inédito que tanto almejamos. Esteticamente, essa influência vem de forma mais abstrata. Num quadro, procuro o equilíbrio através de contrastes, ora por cores, ora por formatos. Nos filmes, procuro estabelecer um ritmo estético na imagem. Às vezes, destacando a personagem através de cores; outras, deixando as cores do ambiente revelarem a emoção dela ou guiando a edição pelos formatos que estão na tela. Por exemplo: vários closes seguidos criam uma sensação diferente de um close seguido de um plano abertão, por mais que as ações sejam as mesmas. É algo sutil,
informado basicamente pelo visual.

Vejo também muito da vida no ato de pintar. Cada vez mais tenho procurado levar a minha vida assim, abraçando o traço e deixando o percurso virar destino. Essa declaração soa meio frase de efeito. Eu sei. Mas, para os que duvidam, peço só que tentem. Tentem só por tentar mesmo. É terapêutico.

Agora deixa eu confessar mais um vício: jogo futebol amador, 11 de linha, de maneira quase profissional. Afinal, só pintar é muito ninja para quem quer brincar de exército de vez em quando.