Ganhei minha primeira câmera do meu pai quando tinha 14 ou 15 anos. Era uma Pentax ME Super. Uma coisa linda. Tenho ela até hoje, em cima do piano, enfeitando a sala junto com outras relíquias fotográficas.
Meu coroa sempre morou fora do Brasil e, nessa época, estava em Nova York. Quando ia passar as férias com ele, ficava sozinho perambulando pela cidade com a câmera, fotografando pessoas, prédios, paisagens, cenas que me chamavam a atenção. Ainda sem entender exatamente o que eu estava fazendo ou por que aquilo me interessava tanto. Era o meu jeito de explorar a cidade. Passava na B&H, comprava quilos de filme e saia atirando pra tudo que era lado.
Acho que comecei fotografando antes de entender fotografia. Um hobby, ou melhor, uma paixão que começou muito antes de eu pensar no que ia fazer da vida. Me enfiava em museus e galerias, devorava livros e revistas. Queria entender melhor o que estava tentando fazer intuitivamente. Ver como outras pessoas olhavam o mundo. Descobrir por que gostava tanto daquilo.
E lá e foram 40 anos fazendo isso.
Fotografei o casamento de quase todos os meus amigos. Nunca como fotógrafo oficial. Isso era importante. Eu não queria organizar ninguém, pedir para olhar para a câmera ou repetir uma cena. Nunca gostei muito de flash ou de fotografia posada. Gostava de procurar as coisas acontecendo. E casamento é um lugar maravilhoso porque tudo está exacerbado. Amor, nervosismo, euforia, bebedeira, alegria, choro. Tudo acontece um pouco acima do volume normal. Como num filme ou numa peça de teatro. Eu procurava esses momentos. E gastava filme sem dó nem piedade. Mais de dez rolos em um casamento era absolutamente normal. Já clicava compulsivamente antes de existir digital.
Nas viagens isso ficou ainda mais forte. Aliás, poucas coisas são tão estimulantes fotograficamente quanto chegar a um lugar que você não conhece. Tudo é novo. A luz, as pessoas, os hábitos, as placas, as ruas e, principalmente, o seu olhar. A cabeça explode. Até hoje um dos meus maiores prazeres é viajar só para fotografar. Quase todo ano tento separar alguns dias pra me entregar sozinho em algum lugar e simplesmente clicar sem destino.
Não preciso necessariamente ter um projeto antes de sair. Às vezes começo a fotografar e um tema aparece. Alguma repetição, um tipo de pessoa, uma história, uma idiossincrasia, um comportamento novo. Outras vezes simplesmente vou fotografando até descobrir o que estava procurando. Mesmo que não ache absolutamente nada.
Uma vez eu estava fazendo uma conexão em Paris e consegui mudar minha passagem para o dia seguinte. Deixei a mala num armário no aeroporto, peguei só a câmera e fui para a cidade. Sem hotel. Sem nada. Passei 24 horas andando por Paris e fotografando. Depois voltei para o aeroporto, peguei a mala e embarquei seguindo viagem.
Talvez isso explique melhor minha relação com a fotografia do que qualquer definição.
Ainda tenho câmeras SLR, lentes, algumas câmeras compactas. Gosto muito delas. Mas hoje fotografo bastante com o celular. O celular tem uma vantagem enorme para mim. Além de estar sempre disponível, ele praticamente desaparece. As pessoas não percebem que estão sendo fotografadas da mesma maneira que reagem quando uma câmera grande é apontada para elas. É muito bom captar um instante sem interferir nele.
O projeto Favelagrafia nasceu um pouco dessa lógica. Criado por mim e pela Karina Abicalil, o projeto colocou celulares nas mãos de nove fotógrafos de nove favelas diferentes do Rio de Janeiro para que eles próprios mostrassem suas comunidades. A ideia era muito simples: em vez de repetir as imagens e os estereótipos que normalmente aparecem quando alguém decide retratar uma favela, queríamos que quem vivia ali mostrasse aquilo que enxergava. E a praticidade e a invisibilidade do celular ajudaram muito nisso. As imagens ficaram tão incríveis e o projeto tomou uma proporção tão grande que acabou rendendo duas exposições no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e um livro.
Sim. O hobby foi parar no museu.
No final, cada vez mais a fotografia tem menos a ver com a câmera. Já fiz, por exemplo, um ensaio inteiro sem usar câmera nenhuma. Durante uma época de muitas reuniões online, comecei a perceber aquelas pequenas janelas na tela como retratos. Expressões, distrações, silêncios, pessoas olhando para algum lugar fora da tela. Comecei a dar print screen. No fim, tinha um ensaio fotográfico feito só de capturas de reuniões.
Na pandemia também criei outro pequeno hábito. Todo fim de tarde eu fotografava o horizonte. Os dias estavam todos muito parecidos e, de alguma forma, eu precisava perceber que o tempo estava passando. Então comecei a reparar que o sol se punha todos os dias em um ponto ligeiramente diferente. Fotografava aquilo quase como uma prova de que eu não estava vivendo o mesmo dia. A Terra estava andando. O tempo estava passando.
Talvez por isso eu fotografe praticamente todos os dias até hoje. No metrô. Na agência. Numa reunião. Meus filhos em casa quando não estão olhando. Uma fruta no quintal. Uma flor que caiu no chão. Não precisa necessariamente acontecer alguma coisa extraordinária. A fotografia me ensinou que, muitas vezes, o extraordinário é simplesmente prestar atenção.
Aliás, tem uma coisa na fotografia que sempre me fascinou. Nas câmeras SLR, quando você aperta o botão para fazer uma foto, o espelho sobe para a luz chegar ao filme. É nesse exato microinstante que a fotografia acontece. E, por uma ironia da física, justamente nesse momento você não vê a imagem. É isso mesmo. O único espaço de tempo que você não vê é exatamente aquele que está sendo fotografado. Depois, a imagem precisa ser revelada. Sempre achei essa palavra maravilhosa. Revelar. Porque é exatamente isso que acontece. Você captura alguma coisa que, naquele instante, você próprio não conseguiu ver. Pode ser um segundo. Um centésimo de segundo. Um milésimo de segundo. E só depois aquilo se revela. Para mim, aí está uma das maiores poesias da fotografia.
Mas talvez a poesia maior esteja em outro lugar. Uma fotografia pode ser muito maior do que os limites das suas bordas e muito mais longa do que o instante que registrou. Você olha para uma cena e começa a imaginar o que está acontecendo ali. O que aconteceu antes daquele instante. O que vai acontecer depois. Para onde aquelas pessoas estavam indo. O que estavam pensando. Quem são elas. Qual história existe por trás daquela imagem. Quanto mais aquele centésimo de segundo consegue se expandir para além do instante, mais interessante é a foto. Quanto mais curiosidade e imaginação uma imagem provoca, melhor ela é.
Talvez, no fundo, eu sempre tenha gostado da mesma coisa: contar histórias. A fotografia é só um dos canais. Talvez meu hobby seja contar histórias. Ou capturá-las. E não exatamente fotografar.
Claro que fotografar sempre me ajudou em muitas coisas que faço no trabalho. O olhar, a estética, a composição, o enquadramento. Mas tem uma coisa um pouco mais profunda que gostaria de compartilhar. Uma maluquice minha. Bastante simples, aliás, mas que acabou ganhando muito significado. Quando estou andando por alguma cidade fotografando e chego a uma bifurcação ou a um cruzamento sem saber exatamente para que lado ir, olho para onde está a melhor luz. E sigo naquela direção. Na maioria esmagadora das vezes, funciona. A luz acaba me levando para uma rua que eu não conhecia, para uma pessoa, uma cena, uma história, alguma coisa que eu provavelmente não encontraria se tivesse planejado o caminho. Apenas seguindo a luz. Literalmente.
André Havt é CCO da DRUM




