Radar Cannes: Meg Magro, diretora de Atendimento da S de Samba
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Os trabalhos que mais me despertaram interesse para Cannes este ano são aqueles que conseguem ultrapassar a publicidade tradicional e realmente ocupar um espaço na cultura. Vejo campanhas que entendem comportamento, criam conexões reais com o público e usam o craft de forma estratégica, a serviço da narrativa e da emoção. Mais do que peças publicitárias, são projetos que constroem histórias, geram entretenimento e transformam marcas em assunto.
1 – Amazonia Brand Identity – EMBRATUR e RAI (Rotas Amazônicas Integradas)
O case ‘Amazonia Brand Identity’ me chamou atenção porque reposiciona a Amazônia como uma potência cultural, criativa e contemporânea por meio de um modelo de identidade visual vivo, intenso e estrategicamente relevante. Fugindo de estereótipos visuais tradicionais, o projeto transforma biodiversidade, território e ancestralidade em uma linguagem capaz de atingir o mundo, conectando sustentabilidade, inovação e impacto cultural.
Com um craft lindo, forte consistência estética e uma narrativa alinhada às discussões mais urgentes do planeta, a identidade transcende o design gráfico e se torna uma plataforma de posicionamento cultural. O resultado é uma marca inesquecível e poderosa, desenvolvida para influenciar a forma como o mundo vê a Amazônia hoje e no futuro.
2 – The Triangle Theory – Doritos
Criada para Doritos, ‘The Triangle Theory’, tem um enorme potencial em Cannes porque consegue unir entretenimento, humor, cultura pop e construção de marca de maneira muito inteligente. O projeto parte de um insight poderoso: transformar um dos momentos mais icônicos do futebol brasileiro – o corte de cabelo de Ronaldo na Copa de 2002 – em uma teoria conspiratória ligada ao branding da marca.
O grande mérito está na forma como a campanha constrói ficção com aparência de verdade. A narrativa se espalha por vazamentos “encontrados”, debates esportivos, conversas nas redes sociais e até um falso filme perdido de 2002. É aquele tipo de campanha que vira assunto antes mesmo de parecer publicidade.
Vejo um forte potencial de shortlist e até de Leão porque reúne características muito valorizadas hoje nos festivais: conexão cultural, narrativa, craft sofisticado e uso inteligente de ativos de marca transformados em entretenimento. Ao misturar nostalgia, humor e linguagem documental, o case consegue transformar um momento histórico do futebol brasileiro em conversa contemporânea de marca.
3 – The Shape of Dreams – ON
Por último, eu gostaria de falar sobre o filme criado para ON: ‘The Shape of Dreams’. Não tenho certeza se ele está inscrito no festival, mas tem tudo para estar.
Estrelado pela multifacetada Zendaya (atriz, cantora, modelo, celebridade – e linda!), ‘The Shape of Dreams’ é um filme muito forte para Cannes pela maneira sensorial com que trabalha emoção, linguagem visual e posicionamento de marca. A direção de Spike Jonze traz uma assinatura autoral que aproxima o projeto muito mais de um curta-metragem artístico do que de uma publicidade tradicional.
E a trilha sonora? Mais um ponto superinteressante. A trilha provavelmente é um dos elementos que mais ampliam o potencial da campanha em Craft/Music. O grande diferencial está na forma como a música conduz o timing da transformação visual, sustenta o humor lúdico, cria estranhamento e ajuda a construir uma linguagem fashion sem recorrer ao óbvio.
Não aposta em pop bombástico, beats eletrônicos ou soluções épicas. Pelo contrário: escolhe a delicadeza do piano como elemento central da narrativa, que constrói atmosfera, ritmo e linguagem.
