Meu trabalho acontece, em grande parte, diante de uma tela. Ideias, reuniões, apresentações, pesquisas, referências. Tudo passa por ali. Talvez por isso eu goste tanto de atividades que me levam para o caminho oposto: aquele em que é preciso usar as mãos, prestar atenção aos detalhes e aceitar que algumas coisas simplesmente levam tempo.
Sempre gostei de trabalhos manuais. Gosto de fazer, pesquisar, descobrir uma técnica, procurar uma referência e acompanhar o trabalho de outros artistas. Hoje faço cerâmica fria, trabalho com linha, pintura, experimento técnicas diferentes e ainda cultivo o gosto por colecionar, com Funko Pops, LEGO e outras miniaturas que foram, aos poucos, ocupando estantes, cantos da casa e parte do meu cotidiano.
Essa relação vem de muito antes. Cresci vendo minha mãe fazer trabalhos manuais e aprendi com ela algumas dessas habilidades. Ao longo do tempo, fui passando pelo bordado, pelo crochê, pela papelaria, pela encadernação e por outros fazeres. Cheguei, inclusive, a ter uma loja de papelaria. Algumas técnicas ficam por mais tempo, outras aparecem, cumprem seu papel e dão lugar a novas curiosidades. O que permanece é a vontade de criar.
O interesse por fazer, pesquisar, colecionar e entender as histórias por trás das coisas acabou encontrando espaço também na minha vida acadêmica. Fiz mestrado, fui professora e, depois de um período afastada da academia, começo a ensaiar um retorno que pode se traduzir em um novo mestrado ou em um doutorado.
A pesquisa que começo a desenvolver olha para a expressão da criatividade como uma forma de as mulheres exercerem sua voz e sua autonomia, mas também de ocuparem espaços e se conectarem umas com as outras. Interessa-me especialmente pensar nesses movimentos de criatividade feminina como lugares de encontro, uma espécie de reconstrução das aldeias e dos grupos que a vida contemporânea foi, aos poucos, desfazendo. É um campo de pesquisa que pode partir da comunicação e chegar à filosofia, passando também pelo feminismo. E gosto de perceber que esse caminho nasceu, de alguma maneira, das experiências que meus próprios hobbies me proporcionaram.
É claro que existe uma ligação entre tudo isso. No trabalho, nos estudos ou diante de uma peça que começa a ganhar forma nas minhas mãos, há sempre um exercício de observação, curiosidade e descoberta. O trabalho manual, porém, tem uma particularidade: ele me obriga a respeitar outro ritmo. Não existe o mesmo tipo de urgência de uma tela, nem a expectativa de que tudo esteja pronto imediatamente.
Em meio à velocidade dos dias e a uma rotina que pede respostas o tempo todo, criar me devolve outra medida para as coisas, feita de atenção e presença. É o tempo das mãos. E gosto de pensar em tudo o que ainda pode nascer dele.



