Vanessa Moriya, fundadora do Set Sustável: “Sustentabilidade não precisa ser sinônimo de produção mais cara”

O debate sobre sustentabilidade já chegou às estratégias de ESG dos anunciantes, mas ainda encontra obstáculos quando passa para os bastidores da publicidade. Custos, logística e falta de conhecimento sobre destinação de resíduos estão entre os fatores que dificultam a adoção recorrente de práticas ambientais nos sets de filmagem.

Criado em 2019 pela diretora de cena Vanessa Moriya e transformado em empresa independente em 2022, o Set Sustentável atua justamente nessa frente, com gestão de resíduos e neutralização do impacto ambiental de produções audiovisuais. Somente no primeiro semestre de 2026, a empresa participou de mais de 30 projetos. Desde o início da operação, já destinou corretamente mais de 28 toneladas de resíduos e compensou mais de 650 toneladas de emissões de CO₂.

Agora, com uma estrutura ampliada e suporte operacional do Grupo Dale!, holding especializada em produção audiovisual para o mercado publicitário, a empresa pretende aumentar em cerca de 20% o volume de operações no próximo ano e atender novos formatos de produção.

Em entrevista ao VoxNews, Vanessa Moriya, fundadora do Set Sustentável, fala sobre o peso da sustentabilidade nos orçamentos publicitários, a mensuração do impacto ambiental dos sets, o uso desses indicadores pelas marcas e o desafio de transformar práticas sustentáveis em parte recorrente do planejamento das produções — e não apenas em uma contratação pontual.

 

VoxNews – O Set Sustentável atuou em mais de 30 produções apenas no primeiro semestre de 2026. Com a nova estrutura, qual é a meta de crescimento da operação e quantos projetos a empresa pretende atender nos próximos 12 meses?

 

Vanessa Moriya – Pretendemos aumentar em torno de 20% das operações da Set no próximo ano e aumentar o leque de formatos de produções audiovisuais.

 

 

VoxNews – Na prática, qual é o impacto da adoção de uma gestão sustentável sobre o orçamento de uma produção publicitária? É possível mensurar quanto esse serviço representa, em média, do custo total de um projeto?

 

Vanessa Moriya – Não existe um único percentual, porque cada produção tem uma configuração muito diferente. O investimento varia conforme número de diárias, tamanho da equipe, locações, logística, volume e tipos dos resíduos e escopo das ações adotadas. O que percebemos na prática é que, quando a sustentabilidade entra desde a pré-produção, ela deixa de ser apenas um custo adicional e passa também a contribuir para uma gestão mais eficiente de recursos. Nosso trabalho começa justamente nessa etapa: entender o projeto e propor soluções compatíveis com sua escala e realidade orçamentária. Às vezes, trocas e substituições estratégicas de produtos acabam reduzindo razoavelmente o valor de compra de consumíveis, logo gerando menos resíduos. Sustentabilidade não precisa ser sinônimo de uma produção mais cara. Muitas vezes, significa produzir de forma mais planejada e eficiente.

 

 

VoxNews – Além das mais de 28 toneladas de resíduos destinados corretamente e das 650 toneladas de CO₂ compensadas, quais indicadores vocês utilizam para medir a eficiência ambiental de cada produção e demonstrar esses resultados aos anunciantes?

 

Vanessa Moriya – Cada produção gera um conjunto de indicadores ambientais de acordo com o escopo contratado. Entre eles estão volume e destinação dos resíduos por categoria, índice de desvio de aterro, resíduos orgânicos destinados à compostagem, materiais encaminhados para reciclagem ou destinações específicas, ações de redução e reutilização, doações realizadas e emissões de CO₂ relacionadas à produção quando esse levantamento faz parte do projeto. Ao final, esses dados são consolidados em um relatório de impacto que permite à produtora, agência e anunciante visualizar os resultados ambientais daquele trabalho. A Set desenvolveu ao longo dos últimos anos uma metodologia própria para organizar, acompanhar e comunicar esses indicadores, que vem sendo constantemente aprimorada a partir da experiência prática nos sets.

 

VoxNews – De que forma os dados gerados pelo Set Sustentável podem ser incorporados às metas e aos relatórios de ESG das marcas? Existe hoje uma demanda crescente dos anunciantes por métricas ambientais específicas relacionadas à produção audiovisual?

 

Vanessa Moriya – O que buscamos é trazer cada vez mais clareza, transparência e rastreabilidade para esses dados, ainda mais em um mundo com tanta informação – e também desinformação. Por isso, trabalhamos com a separação dos resíduos em diferentes frações, por exemplo, e não apenas duas categorias, conseguindo entender melhor a destinação de cada material e mensurar os resultados de cada produção. Acho que existe uma reflexão importante: hoje grandes marcas já olham para práticas de ESG em toda a cadeia de seus produtos, da origem da matéria-prima à embalagem e ao consumidor. Por que não olhar também para a forma como esse produto é divulgado? A produção audiovisual faz parte dessa cadeia e também precisa entrar nessa conta.

 

VoxNews – Quais são os principais obstáculos para que práticas sustentáveis sejam incorporadas de forma recorrente às produções publicitárias: custo, falta de conhecimento, complexidade operacional ou ausência de exigências por parte dos clientes? O que mudou nesse cenário desde 2019?

 

Vanessa Moriya – Acho que o principal desafio ainda é o custo. Sustentabilidade é uma causa com a qual todo mundo concorda, mas, quando chegamos à linha do orçamento, muitas vezes é um dos primeiros itens a ser cortado. E precisamos lembrar que sustentabilidade também é uma cadeia de trabalho: gera empregos, movimenta empresas, cooperativas e profissionais especializados. Portanto, ela também tem um custo de produção. Desde 2019, muita coisa mudou e hoje existe muito mais consciência sobre o tema. O próximo passo é fazer com que a sustentabilidade deixe de ser vista como um adicional e passe a ser um item recorrente e, idealmente, essencial das produções. Acho que existe também uma discussão sobre responsabilidade compartilhada: por que esse custo precisa ficar concentrado em apenas um elo? Se produtora, agência e anunciante fazem parte da mesma produção, podemos pensar em maneiras de dividir essa responsabilidade e esse investimento, incorporando a sustentabilidade desde o início do orçamento.

 

VoxNews – Com o suporte operacional do Grupo Dale!, o que muda concretamente na capacidade de atendimento do Set Sustentável? A expectativa é transformar a sustentabilidade em um item mais recorrente dos orçamentos e processos das produtoras, em vez de uma contratação pontual?

 

Vanessa Moriya – A parceria com o Grupo Dale! representa, principalmente, um passo importante de profissionalização e estruturação da Set Sustentável. Passamos a contar com um suporte em áreas estratégicas e administrativas, o que permite que nossa equipe esteja ainda mais concentrada no desenvolvimento da metodologia, no atendimento aos projetos e na qualidade da operação. Essa estrutura também nos dá condições de crescer de forma mais organizada e ampliar nossa presença junto às produtoras, agências e marcas. Nosso objetivo é justamente contribuir para que a sustentabilidade deixe de aparecer apenas em projetos específicos e passe a ser considerada desde o início da produção, como parte natural do orçamento e do planejamento. Quanto mais recorrente esse processo se torna, mais eficiente ele também tende a ser para toda a cadeia.

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