A criatividade não termina quando o expediente acaba.

Rafael Ferrer, sócio da Quintal: “A marcenaria me relembra como eu gosto e como acredito que meu trabalho precisa ser feito”

Por voxnews3 min de leitura

Há alguns anos, resolvi construir, sozinho, uma casinha na árvore para os meus filhos.

Eu não tinha nenhuma ferramenta, nunca tinha feito nada parecido e, muito menos, sabia trabalhar com madeira. Mas queria ter a experiência de fazer aquilo para eles.

Fiz.

Demorou meses. Eles amaram. E foi assim que começou.

Depois da casinha pronta, comecei a olhar para os restos de madeira e pensar no que mais poderia fazer com eles. Fiz um porta-chaves com um toco de lenha que encontrei. Peguei rodapés antigos que tinham sobrado de uma reforma e transformei em tábuas para carne e frios. Depois veio uma luminária para a sala de jantar. Uma coisa aqui. Outra ali.

Não demorou para a marcenaria passar a fazer parte da minha vida fora da agência.

Comecei a ler sobre madeiras, estudar como fazer as coisas, assistir a horas e horas de vídeos sobre ferramentas e, principalmente, a me aventurar. Testar. Errar. Aprender. Pegar um pedaço de madeira, fazer dele alguma outra coisa e dar de presente para pessoas queridas.

Como publicitário, foi impossível não criar uma marca para isso. Nasceu a ToCo. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, ela não tem nenhuma pretensão de virar um negócio. É um hobby, quase terapêutico.

Um jeito de sair do dia a dia da publicidade e entrar em um mundo mais tátil, mais físico. Um mundo onde não tem IA (ainda), Control+Z, pixel, prazo ou aprovação.

Nós, publicitários ou não, vivemos em um mundo cheio de dispersão. De alt-tab. De notificações. De estímulos que se atropelam.

Quando estou na oficina, meu foco está todo ali. Na madeira. Na ferramenta. No barulho da serra, da lixadeira. Na poeira. Na peça que está tomando forma. Não tem outra aba aberta na cabeça.

E essa é uma das coisas que tenho levado da marcenaria de volta pra minha vida fora da nuvem de serragem: estar mais atento. Olhar para as coisas com mais calma. Dar atenção de verdade ao que está na minha frente.

A gente, na Quintal, sempre tratou nosso trabalho na propaganda como algo artesanal, no sentido mais puro. Com dedicação, esmero, atenção aos detalhes e muita mão na massa.

E provavelmente é aí que esses dois mundos se encontram pra mim.

Hoje, de alguma forma, a marcenaria me relembra como eu gosto e como acredito que meu trabalho precisa ser feito. Porque cada encaixe faz diferença. Cada lixamento apressado deixa sua marca. Todo cuidado com uma peça aparece no resultado.

No fim, é pouca a diferença entre o que tem na bancada da minha oficina e na minha mesa na agência: é sempre a madeira ou o briefing que aparecer pela frente, algumas ferramentas, minhas mãos e a vontade de transformar aquilo em algo útil, admirável, que faça diferença.

Transformar um toco num treco. Ou numa campanha.