
Trilha boa não entra em cena apenas para acompanhar a imagem. Pode mudar o ritmo de um filme, criar tensão onde ela não estava, provocar desconforto ou até levar a narrativa para um caminho que o briefing não previa. É a partir dessa relação menos óbvia entre som e imagem que Murilo Faria e Yuri Chix, sócios da Yeti Sounds, pensam a produção musical para o audiovisual.
A dupla também olha com naturalidade para a chegada da inteligência artificial ao processo. A tecnologia pode acelerar etapas, mas não resolve uma questão essencial: o que escolher entre tantas possibilidades. É aí que entram repertório, intenção e até aquelas imperfeições — uma respiração, um ruído, uma bateria fora do tempo — que ajudam a dar personalidade ao trabalho.
Na conversa com o VoxNews, Murilo e Yuri discutem por que o áudio deveria chegar mais cedo aos projetos, como preservar o craft em uma produção cada vez mais rápida e o que muda para as produtoras de som quando uma música pode ser gerada em poucos segundos.
Em uma produção audiovisual, em que momento o som deveria entrar no processo criativo? Ainda existe uma tendência de pensar trilha e sound design como etapas posteriores à imagem ou o mercado já começa a incorporar o áudio desde a concepção do projeto?
É fundamental que a trilha e o sound design estejam envolvidos desde o início do processo criativo. Isso permite mapear o DNA sonoro da marca e explorar possibilidades, mas também entender, desde cedo, o que não faz sentido para aquele projeto.
Quantas vezes vemos uma produção experimentar inúmeras possibilidades de trilha para, no final, voltar à ideia inicial? Isso acontece porque o processo criativo também é sobre descobrir o que funciona e, principalmente, o que não funciona. Um exemplo clássico é Billie Jean, do Michael Jackson: depois de mais de 80 versões de mixagem, a versão escolhida para o disco foi a segunda. Às vezes, o caminho não é acrescentar mais, mas reconhecer o que já estava ali desde o começo.
Vocês defendem que uma trilha pode ir além do briefing e revelar caminhos que nem estavam formulados inicialmente. Até onde uma produtora de áudio pode interferir criativamente em um projeto sem ultrapassar as fronteiras de direção, criação e produção audiovisual?
O primeiro compromisso é sempre com o briefing e com a visão da direção. É a partir desse entendimento que começamos a explorar caminhos e, eventualmente, propor algo que vá além do que foi inicialmente imaginado.
Acreditamos que essa seja justamente a contribuição de uma produtora especializada: não apenas executar o que foi pedido, mas trazer um repertório e uma perspectiva capazes de ampliar as possibilidades do projeto. Além disso, o briefing não precisa ser algo imutável. Conforme o processo avança, novas ideias surgem e a própria compreensão do filme se transforma. O importante é que essas descobertas estejam sempre a serviço da narrativa.
Com prazos mais curtos, budgets pressionados e um volume crescente de conteúdo, como preservar o craft na produção sonora?
Acreditamos que a inteligência artificial pode ajudar justamente nesse ponto: ganhar velocidade em determinadas etapas do processo para que possamos dedicar mais tempo e energia ao que realmente faz diferença no resultado final.
O desafio é não confundir agilidade com qualidade. Se conseguirmos usar a tecnologia para otimizar tarefas operacionais, podemos preservar o tempo necessário para experimentar, fazer escolhas mais cuidadosas e trabalhar nos detalhes que dão personalidade a uma produção. O craft não está necessariamente em gastar mais tempo em tudo, mas em saber onde esse tempo faz diferença.
A inteligência artificial já consegue gerar música e soluções sonoras em poucos segundos. Como isso muda o papel das produtoras especializadas?
Velocidade e qualidade são coisas diferentes. A inteligência artificial consegue gerar resultados rapidamente, mas isso não significa, necessariamente, que exista ali uma intenção artística ou uma solução adequada à narrativa. Além disso, estamos começando a reconhecer uma certa “sonoridade de IA”, uma estética que pode acabar tornando os resultados parecidos entre si.
Nós vemos a inteligência artificial como uma ferramenta que pode contribuir para o processo, mas não como um substituto para o olhar crítico, o repertório e as decisões humanas. O papel de uma produtora especializada é justamente transformar possibilidades em escolhas: entender o que a história pede e encontrar uma solução sonora com identidade, intenção e personalidade.
Vocês falam da imperfeição — uma respiração, o ruído de uma corda, uma bateria ligeiramente fora do tempo — como informação emocional. Em um audiovisual cada vez mais tecnicamente polido, existe hoje uma busca deliberada por essas marcas humanas para evitar uma certa padronização estética?
Com certeza. Existe uma busca por sonoridades que tenham personalidade, e muitas vezes são justamente as imperfeições que fazem uma música parecer viva. Nós pensamos em música, não apenas em trilha sonora. Quando ouvimos discos clássicos, percebemos respirações, ruídos, pequenas imprecisões e escolhas que talvez fossem corrigidas pelos padrões técnicos de hoje. Mas são justamente esses elementos que dão identidade e emoção às gravações.
No audiovisual, não é diferente. Nem sempre a melhor solução é a mais limpa ou tecnicamente perfeita. Às vezes, é uma textura, um ruído ou uma execução imperfeita que faz a cena ganhar verdade. O importante é entender quando essas características contribuem para a narrativa, em vez de eliminá-las automaticamente em nome de um ideal de perfeição.
A Yeti reúne referências da música eletrônica, da cultura de pista, de bandas e da produção autoral. Como esse repertório se traduz na leitura de uma imagem? O que faz uma trilha deixar de ser apenas acompanhamento e passar a participar efetivamente da narrativa de um filme?
Um ótimo exemplo é Sirāt (2025), de Oliver Laxe, com trilha sonora de Kangding Ray. Nesse filme, a música não está apenas acompanhando as imagens: ela participa ativamente da experiência, conduz as sensações e se torna quase um personagem.
Achamos que esse é o ponto em que a trilha deixa de ser um acompanhamento e passa a ter uma função narrativa própria. Nosso repertório musical amplia a maneira como lemos uma imagem e nos permite propor caminhos que nem sempre são óbvios. A música pode criar tensão, desconforto, euforia ou até contradizer o que estamos vendo. Quando ela deixa de apenas reforçar a imagem e passa a estabelecer uma relação criativa com ela, o filme ganha uma outra dimensão.