Murilo Faria e Yuri Chix, sócios da Yeti Sounds: “Nem sempre a melhor solução é a mais limpa ou tecnicamente perfeita.”

Por voxnews6 min de leitura

Trilha boa não entra em cena apenas para acompanhar a imagem. Pode mudar o ritmo de um filme, criar tensão onde ela não estava, provocar desconforto ou até levar a narrativa para um caminho que o briefing não previa. É a partir dessa relação menos óbvia entre som e imagem que Murilo Faria e Yuri Chix, sócios da Yeti Sounds, pensam a produção musical para o audiovisual.

A dupla também olha com naturalidade para a chegada da inteligência artificial ao processo. A tecnologia pode acelerar etapas, mas não resolve uma questão essencial: o que escolher entre tantas possibilidades. É aí que entram repertório, intenção e até aquelas imperfeições — uma respiração, um ruído, uma bateria fora do tempo — que ajudam a dar personalidade ao trabalho.

Na conversa com o VoxNews, Murilo e Yuri discutem por que o áudio deveria chegar mais cedo aos projetos, como preservar o craft em uma produção cada vez mais rápida e o que muda para as produtoras de som quando uma música pode ser gerada em poucos segundos.

VoxNews

Em uma produção audiovisual, em que momento o som deveria entrar no processo criativo? Ainda existe uma tendência de pensar trilha e sound design como etapas posteriores à imagem ou o mercado já começa a incorporar o áudio desde a concepção do projeto?

Murilo Faria e Yuri Chix

É fundamental que a trilha e o sound design estejam envolvidos desde o início do processo criativo. Isso permite mapear o DNA sonoro da marca e explorar possibilidades, mas também entender, desde cedo, o que não faz sentido para aquele projeto.

Quantas vezes vemos uma produção experimentar inúmeras possibilidades de trilha para, no final, voltar à ideia inicial? Isso acontece porque o processo criativo também é sobre descobrir o que funciona e, principalmente, o que não funciona. Um exemplo clássico é Billie Jean, do Michael Jackson: depois de mais de 80 versões de mixagem, a versão escolhida para o disco foi a segunda. Às vezes, o caminho não é acrescentar mais, mas reconhecer o que já estava ali desde o começo.

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Vocês defendem que uma trilha pode ir além do briefing e revelar caminhos que nem estavam formulados inicialmente. Até onde uma produtora de áudio pode interferir criativamente em um projeto sem ultrapassar as fronteiras de direção, criação e produção audiovisual?

Murilo Faria e Yuri Chix

O primeiro compromisso é sempre com o briefing e com a visão da direção. É a partir desse entendimento que começamos a explorar caminhos e, eventualmente, propor algo que vá além do que foi inicialmente imaginado.

Acreditamos que essa seja justamente a contribuição de uma produtora especializada: não apenas executar o que foi pedido, mas trazer um repertório e uma perspectiva capazes de ampliar as possibilidades do projeto. Além disso, o briefing não precisa ser algo imutável. Conforme o processo avança, novas ideias surgem e a própria compreensão do filme se transforma. O importante é que essas descobertas estejam sempre a serviço da narrativa.

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Com prazos mais curtos, budgets pressionados e um volume crescente de conteúdo, como preservar o craft na produção sonora?

Murilo Faria e Yuri Chix

Acreditamos que a inteligência artificial pode ajudar justamente nesse ponto: ganhar velocidade em determinadas etapas do processo para que possamos dedicar mais tempo e energia ao que realmente faz diferença no resultado final.

O desafio é não confundir agilidade com qualidade. Se conseguirmos usar a tecnologia para otimizar tarefas operacionais, podemos preservar o tempo necessário para experimentar, fazer escolhas mais cuidadosas e trabalhar nos detalhes que dão personalidade a uma produção. O craft não está necessariamente em gastar mais tempo em tudo, mas em saber onde esse tempo faz diferença.

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A inteligência artificial já consegue gerar música e soluções sonoras em poucos segundos. Como isso muda o papel das produtoras especializadas?

Murilo Faria e Yuri Chix

Velocidade e qualidade são coisas diferentes. A inteligência artificial consegue gerar resultados rapidamente, mas isso não significa, necessariamente, que exista ali uma intenção artística ou uma solução adequada à narrativa. Além disso, estamos começando a reconhecer uma certa “sonoridade de IA”, uma estética que pode acabar tornando os resultados parecidos entre si.

Nós vemos a inteligência artificial como uma ferramenta que pode contribuir para o processo, mas não como um substituto para o olhar crítico, o repertório e as decisões humanas. O papel de uma produtora especializada é justamente transformar possibilidades em escolhas: entender o que a história pede e encontrar uma solução sonora com identidade, intenção e personalidade.

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Vocês falam da imperfeição — uma respiração, o ruído de uma corda, uma bateria ligeiramente fora do tempo — como informação emocional. Em um audiovisual cada vez mais tecnicamente polido, existe hoje uma busca deliberada por essas marcas humanas para evitar uma certa padronização estética?

Murilo Faria e Yuri Chix

Com certeza. Existe uma busca por sonoridades que tenham personalidade, e muitas vezes são justamente as imperfeições que fazem uma música parecer viva. Nós pensamos em música, não apenas em trilha sonora. Quando ouvimos discos clássicos, percebemos respirações, ruídos, pequenas imprecisões e escolhas que talvez fossem corrigidas pelos padrões técnicos de hoje. Mas são justamente esses elementos que dão identidade e emoção às gravações.

No audiovisual, não é diferente. Nem sempre a melhor solução é a mais limpa ou tecnicamente perfeita. Às vezes, é uma textura, um ruído ou uma execução imperfeita que faz a cena ganhar verdade. O importante é entender quando essas características contribuem para a narrativa, em vez de eliminá-las automaticamente em nome de um ideal de perfeição.

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A Yeti reúne referências da música eletrônica, da cultura de pista, de bandas e da produção autoral. Como esse repertório se traduz na leitura de uma imagem? O que faz uma trilha deixar de ser apenas acompanhamento e passar a participar efetivamente da narrativa de um filme?

Murilo Faria e Yuri Chix

Um ótimo exemplo é Sirāt (2025), de Oliver Laxe, com trilha sonora de Kangding Ray. Nesse filme, a música não está apenas acompanhando as imagens: ela participa ativamente da experiência, conduz as sensações e se torna quase um personagem.

Achamos que esse é o ponto em que a trilha deixa de ser um acompanhamento e passa a ter uma função narrativa própria. Nosso repertório musical amplia a maneira como lemos uma imagem e nos permite propor caminhos que nem sempre são óbvios. A música pode criar tensão, desconforto, euforia ou até contradizer o que estamos vendo. Quando ela deixa de apenas reforçar a imagem e passa a estabelecer uma relação criativa com ela, o filme ganha uma outra dimensão.