Daniela Vojta, sócia da House Of Rabbits!: “O futuro da criatividade está em saber equilibrar o artificial e o humano.”
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Fundada em Nova York e com operação inaugurada no Brasil em menos de um ano, a House of Rabbits! chega ao mercado brasileiro em um momento de reconfiguração profunda da indústria criativa, marcado por pressão orçamentária, consolidações e pela busca das marcas por novos modelos de parceria. À frente da expansão, Daniela Vojta fala ao VoxNews sobre a leitura de mercado que sustentou essa decisão, o papel estratégico do Brasil dentro da operação global e como criatividade, tecnologia – especialmente a IA – e relevância cultural podem coexistir de forma intencional, gerando impacto real para marcas e negócios.
VoxNews – A House of Rabbits! nasce em Nova York e chega ao Brasil menos de um ano depois. Do ponto de vista de negócio, que leitura de mercado sustentou essa decisão e qual é a ambição da operação brasileira dentro da estratégia global da agência?
Daniela Vojta – O mercado publicitário está passando por um momento desafiador no mundo todo, com consolidações e orçamentos cada vez mais pressionados. Ao mesmo tempo, nunca surgiram tantas agências independentes. As marcas estão procurando novos talentos, novos modelos e, principalmente, novos pontos de vista. As agências indie têm hoje uma oportunidade real de fazer as coisas de um jeito diferente. Isso já acontece nos Estados Unidos e o Brasil segue o mesmo caminho.
Do ponto de vista de negócio, o Brasil reúne dois fatores muito claros para nós: marcas com apetite real por inovação e um nível criativo extremamente alto. É um ambiente onde ideias mais ambiciosas conseguem sair do papel e acontecer de verdade, não só no discurso.
A operação brasileira nasce com a ambição de ser um hub criativo conectado à estrutura internacional da House of Rabbits!. A ideia é aproximar talentos globais de projetos locais e levar para fora do país uma leitura cultural que poucas agências conseguem oferecer. É uma estratégia de crescimento baseada em qualidade criativa, não em escala a qualquer custo.
VoxNews – Vocês operam como agência, laboratório de ideias e espaço de experimentação. Para líderes de marketing, qual é o valor concreto desse modelo em termos de eficiência criativa, velocidade e impacto nos resultados das marcas?
Daniela Vojta – Abordamos cada projeto de maneira única. Fazemos uma imersão profunda com cada cliente para entender seus desafios, objetivos e KPIs. Na prática, a gente funciona como uma extensão do time interno, só que com um olhar de fora e uma experiência em marketing global complementar. Trabalhamos com um time enxuto e sênior, o que reduz ruídos, acelera decisões e evita retrabalho. Isso nos permite ser eficientes sem abrir mão da qualidade.
E, antes de tudo, a gente se vê como storytellers. A criatividade, pra nós, vai do óbvio ao “eu nunca vi nada como isso antes”. A gente foge do convencional em tudo: na estratégia, na criação, na execução e na mídia. Também nos damos espaço para trabalhar em projetos pelos quais temos paixão, como esportes, literatura e causas sociais. Esse repertório mais amplo acaba voltando para o trabalho das marcas, deixando as ideias mais conectadas à cultura e às pessoas.
VoxNews – No projeto “Modo Absurdo”, tecnologia e narrativa caminham juntas. Como garantir que o uso de inovação tecnológica, especialmente IA, esteja conectado a objetivos estratégicos de marca e não apenas ao fator novidade?
Daniela Vojta – Para a Dafiti, uma empresa de e-commerce e fashion tech, a IA foi o ponto de partida, não o fim nem uma forma de “cortar caminho”. A ideia era que os preços da Black Friday fossem hackeados pela gêmea digital da Vitória Strada para baixá-los o máximo possível. Partimos do insight de que consumidores desconfiam de promoções que parecem boas demais para ser verdade. A gêmea, com sua capacidade tecnológica de interferir no sistema, coloca tudo no “modo absurdo”, transmitindo confiança de forma inusitada e divertida.
A ideia faz total sentido para a Dafiti e dá permissão conceitual para o uso da IA. Tudo foi feito de forma ética e cuidadosamente pensada, inclusive na maneira de utilizar e remunerar talentos, envolvendo profissionais que fazem parte da cadeia da moda, como estilistas, consultores de beleza e maquiadores. Desde o início, era uma ideia que, por design, só poderia ser executada com IA.
VoxNews – A IA vem sendo adotada de forma massiva pelo mercado. Onde ela realmente cria vantagem competitiva para marcas e onde você enxerga riscos de padronização e perda de identidade criativa?
Daniela Vojta – Hoje o desafio não é adotar IA, é saber quando ela faz sentido. É inegável que a tecnologia está revolucionando todos os setores da sociedade e não tem como fugir disso. Mas, no fim das contas, é uma ferramenta e precisa ser usada de forma apropriada e com cautela. Temos visto marcas sendo criticadas por campanhas feitas com IA quando existe uma desconexão clara entre a tecnologia utilizada e a natureza da história que está sendo contada.
Há marcas com um histórico de narrativas extremamente humanas e emocionais, construídas a partir de execução real, presença física e emoção genuína. Quando a IA é usada nesse contexto sem uma justificativa conceitual clara, a magia se quebra. É como se existisse uma parede invisível que não pode ser ultrapassada sem o risco de comprometer a confiança da audiência.
Por isso, sempre defendemos que a IA seja assumida como IA. No caso da Vitória Strada, a gêmea digital nunca tentou se passar por alguém real. Ela é propositalmente mais mecânica, mais artificial, justamente para evitar qualquer ambiguidade.
Ao mesmo tempo, acredito que veremos uma reação natural do mercado: um movimento de valorização do que é profundamente humano. Campanhas reais, execução física, imperfeição, emoção. Até a volta do filme.
O futuro, para mim, não está em escolher um lado, mas em saber quando cada extremo faz sentido. O artificial e o humano podem coexistir. O problema começa quando essa escolha não é feita com intenção nem com criatividade.
VoxNews – Muitas marcas buscam relevância cultural, mas poucas conseguem traduzir isso em resultados consistentes. Como a House of Rabbits! trabalha para equilibrar impacto cultural, construção de marca e performance de negócio?
Daniela Vojta – Nós não acreditamos que esses fatores sejam excludentes. Impacto cultural e construção de marca ajudam a gerar performance mais sustentável no longo prazo. Mesmo campanhas focadas em performance precisam estar ancoradas em uma visão estratégica clara, apoiada por um plano de mídia que construa valor, e não apenas distração.
Investimos muito tempo em estratégia no início de cada projeto para entender o que realmente fará diferença na comunicação e, principalmente, como os consumidores irão perceber e interagir com a marca. A partir disso, buscamos a forma mais criativa, inovadora e culturalmente relevante de aplicar esses insights. É uma fórmula simples, mas extremamente eficaz.
VoxNews – Na sua visão, quais competências serão decisivas para as agências criativas que querem permanecer relevantes para CMOs e CEOs nos próximos anos, em um cenário de pressão por inovação, eficiência e crescimento?
Daniela Vojta – CMOs e CEOs precisam de aliados que se envolvam de verdade com seus negócios. Não tratamos clientes como clientes, mas como parceiros. Isso significa entender o contexto, os desafios reais e fazer escolhas junto com eles, inclusive quando é preciso priorizar ou dizer não.
Nosso objetivo não é ser a maior agência do mundo, e sim a que entrega mais confiança, criatividade e resultados.
Ferramentas de IA vão se tornar padrão muito rapidamente. O diferencial não estará na tecnologia em si, mas no julgamento, na sensibilidade cultural e no talento criativo de quem a utiliza. Criatividade sempre foi, e sempre será, o ativo mais valioso que uma agência pode entregar.
