Alexandre Kazuo, diretor de Criação e criador de Conteúdo: “Hoje, a criatividade vale mais do que a execução.”
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Em um cenário em que as ferramentas de inteligência artificial estão cada vez mais acessíveis, o diferencial deixou de ser apenas a capacidade de produzir imagens realistas e passou a estar na leitura da cultura digital. Foi exatamente essa combinação entre repertório, timing e direção criativa que levou o designer brasileiro Alexandre Kazuo Kubo, criativo e criador de Conteúdo, a assinar um dos maiores fenômenos virais da Copa do Mundo de 2026. A paródia que transformou Vinicius Jr. e Erling Haaland em protagonistas de uma das cenas mais icônicas de As Branquelas ultrapassou 200 milhões de visualizações em diferentes plataformas, recebeu interações dos próprios jogadores e até do ator Terry Crews. Reveja aqui.
Nesta entrevista ao VoxNews, Kazuo analisa por que alguns conteúdos conseguem romper a bolha das redes, como a IA está redefinindo o papel da criatividade e quais são os desafios éticos para marcas e criadores na nova era da produção de conteúdo.
VoxNews – Hoje existem milhares de conteúdos produzidos com IA todos os dias. Na sua visão, qual é o verdadeiro diferencial para um meme viralizar: a qualidade técnica, a ideia, o timing ou a leitura da cultura da internet?
Alexandre Kazuo – Em um mundo onde todos tem acesso às mesmas ferramentas, o diferencial com certeza é a ideia. Mas claro, timing, e técnica são muito importantes. Entender o tom, boas práticas e comportamentos das redes sociais também faz parte e talvez seja onde as marcas mais erram, quando tentam utilizar materiais pensados para a TV nas redes sociais, por exemplo. Simplesmente não funciona.
VoxNews – No caso da paródia com Vinícius Jr. e Haaland, você publicou o vídeo antes do confronto entre Brasil e Noruega. Quanto da viralização foi planejamento e quanto foi sensibilidade para identificar o momento exato de entrar na conversa?
Alexandre Kazuo – Eu diria que não dá para planejar algo assim. Claro, existe um planejamento macro meu de interagir com grandes assuntos em eventos relevantes. E quando algo acontece, eu tento ser o mais rápido possível pois as ideias estão no ar e o primeiro a fazer tende a ter mais sucesso.
VoxNews – Com as ferramentas de IA cada vez mais acessíveis, você acredita que a criatividade está deixando de ser uma questão de execução para se tornar principalmente uma questão de repertório e direção criativa? Como isso muda o papel dos profissionais de criação?
Alexandre Kazuo – Criatividade ainda é essencial. Cada época da história teve ferramentas diferentes, mas as pessoas que souberam usá-las da melhor e mais inusitada forma foram as que se destacaram. Agora não é diferente. Pensa que a fotografia e os grandes fotógrafos não desapareceram somente porque, de uma hora para outra, todo mundo começou a ter uma câmera no bolso. Isso apenas possibilitou o acesso à ferramenta e fez com que surgissem mais e melhores fotógrafos.
VoxNews – O vídeo ultrapassou 200 milhões de visualizações somando as repostagens e ainda recebeu interação dos próprios jogadores. Existe alguma característica comum aos conteúdos que conseguem romper a bolha das redes e chegar aos protagonistas da história?
Alexandre Kazuo – Para mim, o sucesso desse vídeo é resultado de uma combinação muito rara de fatores. Primeiro, havia uma ideia inusitada: transportar personagens tão conhecidos para um contexto em que ninguém esperava vê-los. Isso se somou ao timing perfeito, já que o vídeo foi publicado durante o maior evento esportivo do mundo, em um momento de grande expectativa em torno de um confronto decisivo entre duas seleções.
Outro elemento importante é a força de As Branquelas, um filme que conquistou enorme popularidade no Brasil e em outros países. A música escolhida desperta um forte sentimento de nostalgia, enquanto a semelhança entre os atores do filme e os principais jogadores de cada seleção torna tudo ainda mais convincente.
A qualidade da execução também fez muita diferença. Talvez, há apenas alguns meses, não fosse possível alcançar esse nível de precisão com inteligência artificial. Um exemplo disso é que o próprio Terry Crews comentou em uma entrevista que, em um primeiro momento, acreditou que o vídeo fosse real.
Além disso, todos os elementos utilizados são globais e facilmente compreendidos por públicos de diferentes países, o que amplia muito o potencial de alcance. Quando você reúne tantos fatores em um único conteúdo, aumenta significativamente as chances de viralização. É uma combinação difícil de repetir.
Existe ainda um aspecto importante: seria praticamente inviável produzir algo semelhante de forma oficial para uma marca, devido à quantidade de direitos autorais envolvidos, aos custos e ao tempo necessário para negociar todas as licenças. Essa acaba sendo uma das principais vantagens dos criadores de conteúdo atualmente, que conseguem reagir com muito mais rapidez a acontecimentos culturais e produzir materiais altamente relevantes quando o assunto está em evidência.
VoxNews – O uso de IA para criar conteúdos com pessoas reais abre espaço para novas possibilidades criativas, mas também levanta debates sobre direitos de imagem e limites éticos. Como você acredita que a indústria pode encontrar um equilíbrio entre liberdade criativa, inovação e responsabilidade?
Alexandre Kazuo – A tecnologia é tão nova que as regras ainda estão sendo criadas e implementadas. Mas, para ser sincero, espero que eles encontrem uma forma de manter aberto para pessoas poderem brincar à vontade e sem restrições, porque assim podemos ver mais e mais conteúdos divertidos e relevantes. Sem contar que sempre existiram paródias e piadas, independente da técnica. No fim, as pessoas acham uma solução para entrar na brincadeira. Já no caso das marcas, tenho feito vários trabalhos utilizando IA e as regras são as mesmas de antes, respeitando direitos autorais e licenciando imagens e áudios.
