Rejane Romano, diretora de ESG do Publicis Groupe Brasil: “Diversidade precisa chegar a quem decide”
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A diversidade avançou na pauta da publicidade brasileira, mas os números mostram que esse movimento ainda não chegou com a mesma intensidade aos espaços de liderança. Profissionais negros representam 30% do quadro das agências e apenas 10,3% dos cargos de liderança, segundo o Censo de Diversidade das Agências Brasileiras, do Observatório da Diversidade na Propaganda (ODC). Entre mulheres negras, a participação cai para 4,6%.
É nesse cenário que o Publicis Groupe Brasil passa a integrar o MOVER (Movimento pela Equidade Racial), coalizão empresarial voltada à ampliação da inclusão e da equidade racial no mercado de trabalho. A adesão se soma a iniciativas já desenvolvidas pelo Grupo, como o ENTRE, programa de formação que chega à oitava edição, e o Power Flow, dedicado à mentoria e ao desenvolvimento de carreira de profissionais negros.
Para Rejane Romano, diretora de ESG do Publicis Groupe Brasil, avançar nessa agenda exige ir além da contratação. É preciso criar condições para retenção, desenvolvimento e ascensão profissional, ampliando a presença de pessoas negras também nas posições em que estratégias e decisões são definidas.
Em entrevista ao VoxNews, Rejane fala sobre os desafios para transformar diversidade em progressão de carreira, a distância entre a representatividade vista nas campanhas e aquela existente dentro das agências, o papel das lideranças e os indicadores necessários para medir avanços concretos em equidade racial.
VoxNews – Como você avalia hoje a presença de profissionais negros no mercado publicitário brasileiro, especialmente em cargos de liderança e nas áreas mais estratégicas das agências?
Rejane Romano – Não se trata de uma avaliação subjetiva, mas de uma realidade evidenciada pelos dados. Embora as pessoas negras representem a maioria da população brasileira, sua presença em posições de liderança no mercado publicitário ainda está longe de refletir essa composição demográfica. Segundo o Censo de Diversidade das Agências Brasileiras, conduzido pelo ODC (Observatório da Diversidade na Propaganda, antigo ODP), profissionais negros representam apenas 30% do quadro geral das agências e somente 10,3% dos cargos de liderança. Quando analisamos mulheres negras, o percentual cai para 4,6% dessas posições. Esses números demonstram que ainda há um longo caminho a percorrer para alcançarmos uma representatividade efetiva nos espaços de tomada de decisão.
VoxNews – O Publicis Groupe já mantém iniciativas como o ENTRE e o Power Flow. Quais barreiras vocês identificam como mais difíceis de superar para que formação e entrada no mercado se convertam, de fato, em progressão de carreira e liderança?
Rejane Romano – A principal barreira é a intencionalidade. O mercado precisa compreender que a presença de pessoas negras em posições de liderança não é apenas uma questão de representatividade, mas também uma estratégia de negócio. Líderes negros trazem perspectivas diversas, experiências complementares e novos olhares que impulsionam inovação, criatividade e conexão com diferentes públicos. Além disso, a representatividade na liderança contribui para a construção de ambientes mais acolhedores e inspiradores para os talentos que estão ingressando no mercado, reforçando a percepção de que existem oportunidades reais de crescimento e desenvolvimento profissional dentro das organizações.
VoxNews – De que forma a entrada no MOVER pode acrescentar novas ferramentas ou acelerar resultados em relação ao trabalho que o Publicis Groupe já desenvolve internamente na agenda de equidade racial?
Rejane Romano – O MOVER reúne um importante ecossistema de conhecimento, boas práticas e iniciativas voltadas à equidade racial. A partir dessa parceria, nossos colaboradores passam a ter acesso a treinamentos, programas de desenvolvimento, cursos livres, conteúdos educacionais e webinars que fortalecem o processo de formação contínua. Além disso, a troca de experiências entre empresas com desafios semelhantes amplia nossa capacidade de acelerar resultados e aprimorar estratégias já implementadas internamente.
VoxNews – Quando falamos de diversidade na publicidade, ainda existe uma distância entre aquilo que as marcas mostram em suas campanhas e a diversidade presente nas equipes que tomam as decisões. Como você enxerga essa questão hoje?
Rejane Romano – Apesar dos avanços observados nos últimos anos, ainda existe uma distância significativa entre a diversidade retratada nas campanhas e a diversidade presente nas equipes que concebem essas estratégias. Por isso, é fundamental ampliar a presença de pessoas negras nos times e, principalmente, em posições de liderança. Essa transformação é essencial para que estudos recentes, como os conduzidos pela Buzzmonitor, deixem de apontar retrocessos e representações estereotipadas de grupos minorizados. Quanto mais diversos forem os profissionais envolvidos na tomada de decisão, mais autêntica, responsável e representativa será a comunicação produzida para a sociedade.
VoxNews – Além de indicadores de contratação, quais métricas deveriam ser acompanhadas pelas empresas para avaliar se estão realmente avançando em equidade racial — retenção, promoções, remuneração, presença na liderança? E quais desses indicadores são prioritários para o Publicis Groupe?
Rejane Romano – Antes de definir métricas, é fundamental estabelecer metas claras e mensuráveis. No Publicis Groupe Brasil, acompanhamos metas relacionadas tanto ao aumento da representatividade de pessoas negras no quadro geral de colaboradores quanto à ampliação da presença de profissionais negros em cargos de liderança. A partir dessas definições, é possível monitorar indicadores como contratação, retenção, promoções, movimentações internas e ocupação de posições de liderança, garantindo uma visão completa da jornada desses profissionais na organização.
Os programas ENTRE e Power Flow são exemplos concretos dessa estratégia. Enquanto o ENTRE atua ampliando o acesso e a entrada de talentos negros no mercado publicitário, o Power Flow contribui para o desenvolvimento, fortalecimento de rede de apoio e preparação de profissionais para novos desafios de carreira. Para nós, tão importante quanto contratar é criar as condições necessárias para que esses talentos permaneçam, cresçam e alcancem posições de liderança de forma sustentável.
