Maurício Meirelles, sócio-fundador da Dromedário: “Hoje somos uma grade, não um canal de um criador só”

Em um momento em que o entretenimento digital brasileiro passa por uma nova transformação — menos dependente do viral imediato e cada vez mais próximo da lógica de programação da TV —, a Achismos TV se consolida como um dos principais cases independentes do YouTube nacional. Com mais de 1 bilhão de visualizações acumuladas, o projeto criado por Maurício Meirelles evoluiu de um canal de entrevistas para um ecossistema multiplataforma que combina conteúdo ao vivo, humor, comunidade e branded entertainment.

Sócio-fundador da Dromedário, Meirelles defende que o futuro do digital está menos ligado ao algoritmo e mais à capacidade de criar hábitos de audiência. Em entrevista ao VoxNews, o apresentador fala sobre a ascensão das TVs conectadas, a transformação do YouTube em uma experiência de sala de estar, a expansão do Achismos FM e o novo interesse das marcas por formatos mais autênticos, improvisados e conectados ao humor. “Quando a marca adota um tom de voz verdadeiro, ela para de interromper o conteúdo e começa a fazer parte dele”, afirma.

VoxNews – A Achismos TV ultrapassou a marca de 1 bilhão de views em um mercado cada vez mais competitivo. Qual foi a principal virada estratégica para transformar o canal em um case independente do entretenimento digital brasileiro?

Maurício Meirelles – A verdade é que não existe uma virada mágica, e isso em si já é a resposta. Consistência é a estratégia. Estou no YouTube há 17 anos. Você passa por mudanças de algoritmo, de formato, de comportamento de audiência, mas o criador que está lá, testando e se adaptando, é o que sobrevive. A grande decisão estratégica foi diversificar os formatos e trazer novos nomes pro canal. Isso gerou pluralidade de conteúdo e atraiu públicos que antes não nos acessavam. Hoje somos uma grade, não um canal de um criador só.

VoxNews – O crescimento da audiência nas TVs conectadas muda a forma de pensar conteúdo, linguagem e até monetização. Como vocês enxergam essa migração do público do mobile para a sala de casa?

Maurício Meirelles – A TV conectada muda tudo, mas o maior impacto ainda é invisível para a maioria. Quando você assiste no sofá, você não está no modo scroll, você está no modo TV. Isso muda o tempo de atenção, muda o formato e muda muito o valor do anúncio. E os números do Achismos já mostram isso: mais de 40% do nosso conteúdo é consumido direto na TV, e mais de 15% no computador. Ou seja, mais da metade da nossa audiência já está além do celular. Isso não é tendência, já é realidade. E faz todo sentido, porque mais de 90% do nosso conteúdo é entretenimento leve, divertido, feito pra você separar um tempo do dia, sentar no sofá e assistir na tela grande.

VoxNews – O lançamento do Achismos FM reforça uma tendência dos programas ao vivo no digital. O que esse formato entrega hoje que o conteúdo gravado perdeu ao longo dos últimos anos?

Maurício Meirelles – A ideia do ao vivo no Achismos é algo que a gente já vinha querendo fazer há um tempo. Eu particularmente sou muito fã do conteúdo factual, consumo Twitter o dia inteiro, estou sempre de olho no que está acontecendo agora. O Achismos FM vem pra trazer esse elemento híbrido: o factual, a notícia do momento, mas sempre do nosso jeito, com leveza, humor e entretenimento. A novidade real é que isso nos aproxima de uma grade de verdade, parecida com a TV. Você pode ter o jornal, o que está acontecendo agora, e também os programas gravados que as pessoas acompanham como episódios, como uma comunidade. É o melhor dos dois mundos: a urgência do ao vivo e a fidelidade de quem acompanha uma série.

VoxNews – A Achismos deixou de ser apenas um canal para se tornar um ecossistema multiplataforma. Como vocês equilibram audiência, comunidade e interesse comercial sem perder autenticidade?

Maurício Meirelles – A gente vive um grande momento para marcas e publicidade no Brasil. Nos últimos anos, as marcas descobriram o valor de produzir entretenimento de verdade, conteúdo autêntico, com posicionamento real. Pra gente isso é um prato cheio, porque permite lançar editorias de marca dentro da nossa grade. Isso já acontece nos maiores veículos, streaming, TV aberta, TV fechada. A gente chegou na era em que a marca pode criar seu próprio conteúdo original. E esse é exatamente o nosso papel aqui no Achismos: criar conteúdos originais para a comunidade, que também fazem sentido comercial para as marcas que apostam na gente.

VoxNews – As marcas parecem cada vez mais interessadas em formatos que misturam humor, improviso e interação em tempo real. O mercado publicitário já entendeu o potencial comercial desse novo entretenimento digital?

Maurício Meirelles – As marcas estão começando a entender isso agora. Durante muitos anos, havia um medo grande de marcas e agências se conectarem com o humor. E agora a gente está vivendo um outro momento. O humor sempre trouxe muita veracidade, muita verdade, identificação real com as pessoas. Essa identificação é a premissa do entretenimento, as pessoas se reconhecem no que você está falando. E as marcas estão percebendo que dá pra criar coisas autênticas através do humor. Não é à toa que a gente vê vários casos de sucesso de marcas que adotaram um tom de voz mais divertido nas redes, no Twitter, no Instagram, e viralizaram, ganharam seguidores, construíram comunidade. Porque quando a marca adota um tom de voz verdadeiro, ela para de interromper o conteúdo e começa a fazer parte dele.

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