Felipe Kim, sócio da LOUD: “A criatividade surge em lugares reais, marginais, cheios de erros.”

Em um momento em que a inteligência artificial acelera processos criativos e amplia a produção de imagens, sons e narrativas tecnicamente impecáveis, o debate sobre um possível empobrecimento cultural costuma colocar a tecnologia no banco dos réus. Para Felipe Kim, sócio e diretor criativo da LOUD, essa é uma falsa questão. A máquina, diz, funciona mais como um espelho: o que ela revela é uma indústria cada vez mais orientada por algoritmos, fórmulas e pela busca de uma perfeição que ameaça eliminar justamente o que torna a criação interessante — o erro, a experimentação e a imperfeição humana.

Com trajetória iniciada na cena underground de São Paulo, Kim começou a compor trilhas para publicidade, filmes e séries em 2014, construindo uma linguagem que combina sintetizadores e samples a instrumentos tradicionais. Essa origem ajuda a moldar sua visão sobre o atual momento da indústria criativa: diante do que chama de “fadiga do sintético”, ele acredita que o próximo movimento relevante pode estar menos na tecnologia e mais no retorno ao visceral, ao artesanal e à cultura que nasce longe das fórmulas.

Em entrevista ao VoxNews, Felipe Kim fala sobre a influência dos algoritmos na estética contemporânea, a padronização do gosto, o valor crescente da imperfeição e o que a publicidade pode reaprender com a rua e as cenas independentes. Para ele, em um cenário no qual ferramentas tornam a execução cada vez mais acessível, originalidade, repertório e sensibilidade cultural ganham ainda mais importância — sem retirar da execução humana seu papel central no processo criativo.

 

VoxNews – Você diz que a IA é mais um espelho do que a responsável pelo empobrecimento cultural. O que esse espelho está revelando hoje sobre a publicidade e sobre quem produz criatividade?

Felipe Kim – Não somente IA, mas sempre que surge uma nova tecnologia nós temos a tendência de focar somente nisso, no hype que essa novidade está gerando e viramos a cara para onde a cultura real é fomentada. A criatividade surge em lugares reais, marginais, experimentados, cheios de erros. Uma IA não sente o calor e a empolgação de uma pista de dança fervendo. Atualmente, vejo que nos falta essa veracidade, pois estamos cada vez mais polidos e certinhos.

 

VoxNews – A publicidade sempre trabalhou com referências, tendências e fórmulas. O que muda quando o algoritmo passa a influenciar não apenas a distribuição, mas também a estética e o próprio processo criativo? Estamos caminhando para uma padronização do gosto?

Felipe Kim – Sim. Muito do audiovisual atual é pautado pelo algoritmo na busca obstinada por audiência. Isso gera uma autofagia de fórmulas onde se copia a estética, mas se descarta o principal elemento: a imperfeição humana que tornava a referência original interessante. Ao eliminar os ‘erros’ em nome da perfeição algorítmica, o que sobra é apenas uma carcaça oca do que a arte um dia foi.

 

VoxNews – Você fala em uma “fadiga do sintético”, depois de uma explosão de conteúdos tecnicamente perfeitos produzidos ou potencializados por IA. O erro, a imperfeição e até o improviso podem se tornar os novos códigos de autenticidade das marcas?

Felipe Kim – Com certeza, eu acredito que o ser humano se conecta e se identifica quando enxerga a imperfeição do outro e entende sua vulnerabilidade. Quanto mais a sociedade consome o “industrial”, maior vai ser nossa atenção como indivíduo para o “artesanal”, e isso lá no final da ponta vai ser o diferencial para marcas que se destacam mais sobre outras.

 

VoxNews – Sua formação vem da música underground e de uma cultura que nasce justamente fora dos padrões estabelecidos. O que a publicidade pode reaprender com a rua, com as cenas independentes e com manifestações culturais que não foram criadas para agradar ao algoritmo?

Felipe Kim – A próxima grande “coisa” vai nascer da rua, da mente de alguém disruptivo, seja música, cinema, pintura, moda… vai vir de alguém com muito pouco recurso construindo algo criativamente rico. Acredito que precisamos ousar mais, colocar mais o dedo na ferida. Sempre ficamos maravilhados quando uma publicidade consegue fazer isso, mas são pouquíssimas as vezes em que realmente temos esse espaço.

 

VoxNews – Se a IA tende a tornar determinadas competências técnicas mais acessíveis e eficientes, onde estará o verdadeiro valor de um diretor criativo nos próximos anos? Repertório, curadoria, sensibilidade cultural e capacidade de fazer escolhas passam a valer mais do que a execução?

Felipe Kim – Não necessariamente, pois no universo musical, por exemplo, a execução humana sempre vai estar acima de qualquer ferramenta ou IA. Acho que o papel de um diretor criativo é buscar a originalidade com veracidade, e para isso além de repertório, curadoria, é também fazer parcerias com pessoas que enriqueçam mais esse objetivo, trazer talentos que consigam elevar sua ideia. Ou seja, a execução técnica também faz parte da criatividade.

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