Mais do que a dificuldade de encontrar uma nova oportunidade, profissionais da comunicação em transição de carreira têm demonstrado uma necessidade pouco debatida pelo mercado: serem ouvidos. Essa foi a principal constatação do publicitário Fábio Rebouças, diretor criativo associado da Omnicom Media Brazil e criador do Open To Help, iniciativa que começou com um simples convite no LinkedIn para conversas voluntárias e rapidamente se transformou em uma rede de apoio. Após mais de 40 encontros individuais, ele compartilha os aprendizados sobre os desafios da recolocação, a importância da escuta nos processos seletivos e porque acredita que, em um mercado cada vez mais impactado pela inteligência artificial, as competências humanas continuarão sendo o maior diferencial. Confira o bate-papo.
VoxNews – O “Open To Help” nasceu como um gesto individual e rapidamente se transformou em um movimento. O que mais surpreendeu você nas conversas que teve com profissionais em transição de carreira?
Fábio Rebouças – O que primeiro me surpreendeu foi justamente isso, a rapidez da repercussão da iniciativa. Quando eu me coloquei à disposição para ajudar de alguma forma as pessoas da área de comunicação, imaginava algo em torno de 10 respostas. Foram mais de 660 interações, 126 comentários e mais de 38 mil impressões nesse único post no Linkedin, além de muitas mensagens diretas solicitando um papo. E, logo de cara, percebi que havia algo realmente importante começando a acontecer, o que de fato se confirmou após as 40 conversas que tive até agora: o mercado deseja ser ouvido. Muitas vezes, as pessoas não procuram necessariamente uma vaga. Elas procuram alguém disposto a escutar a sua trajetória, validar as suas experiências e ajudar a enxergar novas possibilidades. Até mesmo situações curiosas ocorreram, como dois participantes do OTH que fizeram um verdadeiro monólogo e, ao final da reunião, agradeceram muito a minha ajuda. Na realidade eu apenas tinha os escutado.
VoxNews – Depois dos encontros, quais padrões você identificou sobre os desafios enfrentados por quem busca uma recolocação no mercado de comunicação? O problema é falta de vagas, de preparo ou de conexão entre empresas e talentos?
Fábio Rebouças – As jornadas são muito particulares, o que torna cada conversa um episódio único. Mas, no geral, acredito que exista um pouco de tudo isso, sendo o maior desafio a conexão mesmo. Na verdade, em muitos casos a conexão é iniciada, as etapas do processo seletivo acontecem, mas não há uma conclusão. Muitas empresas, recrutadores e plataformas de seleção, mesmo em fases avançadas do processo seletivo, deixam os candidatos sem resposta, em uma total sensação de abandono e incertezas. A partir daí, a forma de se lidar com essa “não resposta” volta a ser bem individual. Alguns se sentem incapazes e questionam onde erraram, outros demonstram maior resiliência e por aí vai.
VoxNews – Você afirma que muitos profissionais querem, antes de tudo, ser ouvidos. O que essa percepção revela sobre os processos de recrutamento e sobre a cultura das empresas de comunicação hoje?
Fábio Rebouças – O mercado está cada vez mais ágil, dinâmico, rápido. E com os processos seletivos não é diferente, é compreensível isso. Principalmente para as grandes empresas e as multinacionais.
Mas talvez o desafio seja esse mesmo: encontrar alguma forma de se estabelecer uma interação melhor com os candidatos, dar a chance aos não aprovados saberem o motivo da exclusão, especialmente nas etapas mais avançadas do recrutamento. Isso dá uma oportunidade para as pessoas evoluírem também, ajustarem rotas, investirem em pontos a serem trabalhados, entenderem como e onde podem aumentar suas chances. Até porque, no fim do dia, trabalhamos com comunicação.
VoxNews – A iniciativa já começa a mobilizar outros executivos do mercado. Você acredita que o “Open To Help” pode evoluir para um movimento permanente de mentoria e colaboração? Como imagina os próximos passos do projeto?
Fábio Rebouças – Sem dúvida! Não só pode, como já parece caminhar para uma corrente colaborativa. Uma participante dos papos se inspirou a ponto dela própria fazer a sua versão do OTH.
Eu tenho planos para a iniciativa e por isso me coloco no papel de ajudado também, tanto para ouvir a opinião dos participantes, como para aprender com pessoas que empreenderam ou ocupam lugares de grandes lideranças. Quero entender qual é o melhor caminho para iniciativa crescer e ajudar mais pessoas. O segundo passo é de não ficar apenas no formato de papos individuais e abrir uma sessão maior, com mais “helpers”. Farei isso no final do mês. E o meu desejo é que tudo isso evolua para uma comunidade cada vez mais forte, com encontros presenciais, participação de empresas como apoiadoras, universidades e profissionais experientes, mas sempre mantendo a essência de oferecer ajuda genuína e gratuita.
VoxNews – O mercado vive uma combinação de inteligência artificial, novos modelos de trabalho e mudanças nas estruturas das agências. Que competências e atitudes você acredita que serão determinantes para os profissionais que querem construir uma carreira sólida nos próximos anos?
Fábio Rebouças – A tecnologia vai continuar transformando a forma como trabalhamos. Foi assim com os computadores, com a internet etc. Parafraseando Elis Regina, “o novo sempre vem”. Mas acredito que as competências mais valiosas sempre serão as humanas: a curiosidade, o repertório, a colaboração, pensamento crítico, empatia etc. A IA amplia o potencial das pessoas, mas continua sendo a sensibilidade humana que dá significado e propósito maior às ideias e aos projetos. Então, a gente vai seguir com a necessidade de aprender como utilizar as novas ferramentas e tecnologias, mas o diferencial, que eleva o nível quando todo usa os mesmos recursos, é o lado humano mesmo.
Uma participante disse bem: é a IA com mais DNA que faz a diferença.