Amanda Talli – fundadora da Not Brand: “Hoje, muito menos ideias morrem na mesa.”

Em menos de um ano, a Not Brand acumula 23 projetos, 18 clientes e um comercial exibido no Super Bowl Brasil, consolidando-se como um dos estúdios brasileiros especializados em produção criativa com inteligência artificial. Em um momento em que a IA redefine os processos da indústria audiovisual e intensifica debates sobre criatividade, propriedade intelectual e o futuro das agências, Amanda Tali, fundadora da empresa, fala ao VoxNews sobre a evolução do mercado, os desafios da regulamentação, o impacto da tecnologia na produção de campanhas e porque acredita que, no fim das contas, o talento humano continuará sendo o principal diferencial. Confira a entrevista.

 

VoxNews – Em menos de um ano, a Not Brand acumulou 23 projetos, 18 clientes e já assinou um comercial exibido no Super Bowl Brasil. O que esse crescimento revela sobre o estágio de maturidade das marcas em relação à produção com inteligência artificial?

Amanda Talli – Acredito que esse crescimento revela uma mudança na forma como as marcas enxergam a inteligência artificial. Há pouco tempo, ela era vista quase exclusivamente como uma ferramenta para experimentos ou conteúdos de baixa complexidade. Hoje, ela começa a ser reconhecida como uma tecnologia de produção capaz de viabilizar campanhas de alto nível, inclusive para um Super Bowl.

Ao mesmo tempo, acredito que ainda estamos em um momento de transição. Muitas marcas ainda pedem um projeto “com IA”, porque a tecnologia ainda chama atenção por si só. Mas a tendência é que isso desapareça. Da mesma forma que ninguém pergunta se um filme foi feito com determinada câmera ou software de edição, a inteligência artificial também deixará de ser o centro da conversa.

O sinal de maturidade, para mim, é justamente esse. As marcas passam a olhar menos para a ferramenta e mais para o resultado. A pergunta deixa de ser “vamos usar IA?” e passa a ser “qual é a melhor forma de contar essa história?”. A partir daí, IA, captação, VFX e outras tecnologias passam a trabalhar juntas, cada uma cumprindo seu papel.

 

VoxNews – A produção com IA exige investimentos diferentes dos de um estúdio tradicional. Hoje, onde estão os principais aportes: em tecnologia, infraestrutura, formação de talentos ou desenvolvimento de propriedade intelectual?

Amanda Talli – Existe uma percepção de que um estúdio de inteligência artificial investe principalmente em tecnologia. No nosso caso, não. O maior investimento continua sendo em pessoas. A tecnologia é uma ferramenta de trabalho, mas quem gera valor são as pessoas que sabem utilizá-la.

Acreditamos tanto nisso que trabalhamos com um time fixo de sete pessoas. Não seguimos um modelo baseado em montar equipes diferentes para cada projeto. Mantemos um núcleo que trabalha junto diariamente, porque isso garante alinhamento criativo, consistência na qualidade e um entendimento profundo da nossa forma de produzir. Recorremos a profissionais externos apenas quando um projeto exige uma especialidade muito específica.

Essa escolha faz ainda mais sentido em um estúdio de IA. Embora também invistamos em tecnologia, ela só gera valor quando está nas mãos das pessoas certas. Hoje, um único projeto passa por mais de 11 ferramentas diferentes, que atuam de forma integrada ao longo de toda a produção. Por isso, quem está operando precisa conhecer profundamente cada uma delas e, principalmente, entender como elas se conectam para transformar uma ideia em um filme. Não se trata de apertar um botão, mas de dominar um ecossistema inteiro de ferramentas e fazê-las trabalhar em conjunto a favor da ideia.

Afinal, uma pessoa não se torna fotógrafa apenas por comprar uma câmera. Da mesma forma, ninguém faz um grande filme só porque tem acesso às melhores ferramentas de inteligência artificial. O diferencial continua sendo o olhar, a experiência e a capacidade de transformar tecnologia em criatividade. É por isso que, para nós, o maior investimento sempre foi, e continua sendo, o nosso time.

 

VoxNews – Muito se fala sobre redução de custos com IA, mas pouco sobre o impacto criativo. Na prática, como a inteligência artificial está mudando a forma de conceber um filme, desde a ideia até a entrega final?

Amanda Talli – Muita gente olha só para o lado do desempenho: mais rápido, mais barato, mais eficiente. Mas o que quase ninguém comenta, e é justamente o que me fez abrir o estúdio, é o impacto criativo. Não foi o custo que me trouxe até aqui. Foi perceber que a IA abriu uma possibilidade que não existia antes: a de criar praticamente qualquer coisa que se imagine.

Não porque a tecnologia cria sozinha, mas porque ela tornou viáveis ideias que antes eram descartadas por limitações de orçamento, tempo ou complexidade técnica.

Essa mudança acontece em diferentes momentos do processo. Ainda na fase de criação, percebemos que as próprias agências passaram a utilizar inteligência artificial para apresentar conceitos aos clientes. Antes, muitas ideias ficavam restritas a textos, referências ou storyboards, e nem sempre eram compreendidas da forma como haviam sido imaginadas. Hoje é possível visualizar essas ideias com muito mais fidelidade desde o início, o que torna o processo criativo muito mais claro e colaborativo.

Do outro lado, a gente também trabalha com produtoras que fazem captação real e nos procuram na pós. É naquele momento em que o material já foi filmado e, no fluxo tradicional, não haveria mais como corrigir. Às vezes a resposta é IA, às vezes é VFX, às vezes é outra ferramenta, mas o que importa é a multidisciplinaridade. É entender o problema e escolher a melhor solução para que a ideia chegue ao resultado que o cliente imaginou.

No fim das contas, acredito que a maior transformação não está na redução de custos nem na velocidade da produção, mas na ampliação das possibilidades criativas. Hoje, muito menos ideias morrem na mesa. Algumas porque conseguem ser apresentadas de forma muito mais clara desde o briefing. Outras porque aquilo que antes era considerado complexo, inviável ou impossível de executar passou a encontrar solução durante a produção ou até mesmo na pós-produção, quando um material já captado precisa de ajustes. Assim, a inteligência artificial não amplia apenas a eficiência da produção. Ela amplia o número de ideias e de filmes que podem, de fato, sair do papel.

 

VoxNews – Questões como direitos autorais, uso de bases de treinamento e transparência passaram a fazer parte das discussões do mercado. Você acredita que o setor já está preparado para lidar com esses desafios ou ainda falta regulamentação e padronização?

Amanda Talli – Acredito que o setor está caminhando na direção certa, mas ainda não chegamos a um cenário de total padronização. Isso acontece porque a tecnologia evolui em uma velocidade muito maior do que a regulamentação. É natural que ainda existem dúvidas sobre direitos autorais, bases de treinamento e uso comercial.

Percebemos isso desde o início da Not Brand. Nas primeiras conversas com agências, esse era um dos principais pontos de preocupação. Antes mesmo de falarem sobre criatividade ou produção, elas queriam entender como aquele trabalho seria respaldado juridicamente.

Foi justamente por isso que buscamos um escritório de advocacia especializado em inteligência artificial e propriedade intelectual. Juntos, analisamos todas as ferramentas que utilizamos e estruturamos uma árvore de decisão para orientar cada projeto. Dependendo do tipo de trabalho, das ferramentas envolvidas e da finalidade de uso, seguimos caminhos diferentes para garantir que o cliente receba um material apto para uso comercial com segurança jurídica.

Na prática, isso significa entender a necessidade de cada cliente e escolher o fluxo mais adequado. Em alguns projetos, por exemplo, dá para trabalhar com casting real, ou seja, fotografar pessoas de verdade e recriar a partir dali, em vez de gerar do zero. Em outros, seguimos caminhos completamente diferentes. No fim, o importante é que a tecnologia seja utilizada de forma responsável e compatível com o nível de segurança que aquele projeto exige.

Por isso, acredito que ainda exista espaço para uma regulamentação mais clara e para uma maior padronização do mercado, e sou bastante otimista em relação ao futuro desse caminho. Entretanto, não significa que as empresas precisem esperar essas definições para atuar com responsabilidade. Hoje já existem boas práticas, especialistas e processos capazes de garantir decisões muito mais seguras.

 

VoxNews – Olhando para os próximos três a cinco anos, quais tendências devem transformar a produção audiovisual com IA e quais competências profissionais passarão a ser mais valorizadas nesse novo cenário?

Amanda Talli – A transformação mais importante dos próximos anos é, na verdade, contraintuitiva. A ferramenta vai deixar de ser o diferencial. Hoje ainda existe uma vantagem competitiva em dominar as plataformas de inteligência artificial, porque elas ainda estão em um processo de adoção. Mas isso vai se nivelar. Em três ou cinco anos, praticamente todos terão acesso às mesmas tecnologias. Quando isso acontecer, a ferramenta vira commodity e o diferencial volta a ser quem está por trás dela.

Ao mesmo tempo, veremos uma integração cada vez maior entre diferentes linguagens. Em vez de escolher entre captação, VFX ou inteligência artificial, os projetos serão construídos combinando todas essas disciplinas. O profissional mais valorizado será aquele capaz de entender quando cada tecnologia faz sentido e como utilizá-las em conjunto para potencializar uma ideia.

Nesse cenário, a curadoria passa a ocupar um papel central. A quantidade de possibilidades cresce todos os dias, mas isso não significa que todas façam sentido para um projeto. Saber escolher a ferramenta certa, construir um fluxo eficiente e manter consistência criativa será muito mais importante do que simplesmente acompanhar cada novo lançamento.

Por isso, também sou um pouco contraintuitiva quando falamos sobre as competências do futuro. Muita gente acredita que a habilidade mais valorizada será a engenharia de prompt. Eu discordo. Saber operar uma ferramenta será o básico, assim como hoje é saber operar uma câmera. O que continuará diferenciando os melhores profissionais será exatamente aquilo que sempre diferenciou os grandes diretores, roteiristas e criativos: repertório, sensibilidade estética, capacidade de tomar decisões e de contar boas histórias.

No fundo, existe um paradoxo muito interessante. A inteligência artificial vai democratizar o acesso às ferramentas, mas não ao talento. Quanto mais poderosa a tecnologia se torna, mais valioso passa a ser quem tem visão para decidir como utilizá-la. A execução tende a se tornar cada vez mais acessível. O olhar, esse continua sendo insubstituível.

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