Radar Cannes: Rodrigo Niemeyer, head de Criação da Purpple
Compartilhar
Para Rodrigo Niemeyer, head de Criação da Purpple, alguns dos trabalhos mais interessantes para esta edição de Cannes Lions refletem um momento de transição vivido pela própria indústria. Entre a ascensão da inteligência artificial como marca anunciante, uma provocação bem-humorada aos terraplanistas e uma inovação quase invisível da Lego, os cases escolhidos pelo criativo têm algo em comum: ideias que não dependem de grandes efeitos para gerar conversa. São campanhas que encontram força no posicionamento claro, no contexto cultural e na capacidade de transformar temas complexos em narrativas simples, provocativas e relevantes.
1 – A Time And A Place, Claude
A Inteligência Artificial evolui num ritmo impressionante. Se pensarmos na nossa bolha, o arco dessa história tem até uma poesia. Saiu de um lugar de aposta nas agências, virou uma ferramenta indispensável e agora está fazendo propaganda para se vender. O ciclo foi fechado.
O projeto “A Time And A Place” do Claude me agrada justamente pela simplicidade. Campanha de filmes, roteiros simples, de diálogos ácidos e incômodos. É uma saraivada contra os clichês do uso, para assumir um posicionamento contra os concorrentes.
Uma marca queridinha (íssima?) em todas as agências, fazendo propaganda boa, apoiada num contexto mega atual. Trouxe uma aposta sem grandes pirotecnias para esse balaio. Merece levar. Só espero que os roteiros não tenham sido feitos pelo ChatGPT.
2 – Expedition Impossible, da Columbia
De um lado uma marca que te convida a quebrar barreiras, explorar lugares extremos e vencer os climas mais hostis do mundo. Do outro, pessoas que acreditam em lugares ainda mais extremos e insólitos do que a Columbia poderia desenhar suas roupas.
Uma campanha provocando os terra-planistas a trazerem evidências dos limites do planeta em troca de controle total da empresa. O divertido senhor CEO mandou bem demais na atuação, num trabalho bem mais difícil do que comer um hambúrguer da sua própria empresa (entendedores entenderão).
Ideia boa, divertida, gerando bastante PR. Fico pensando que em algumas salas de reunião de um passado provável, algumas ideias de terra-planista já caíram porque não queriam atrito com nenhum target, afinal, “0.7% dos seus consumidores acreditam que a terra é plana”.
3 – Lego Smart Play, da Lego
É engraçado pensar que uma marca que inspira tanto a criatividade tenha mudado tão pouco (ou nada) em 50 anos de história. Toda “tecnologia” da Lego sempre se baseou no simples encaixe de uma peça na outra. Preto no branco assim.
E então, numa era de iPads e TikToks, eles lançam a maior revolução tecnológica da marca de um jeito tão minimalista e alinhado com a essência dos seus produtos: sem telas ou botões. Palmas. Vai ganhar innovation sem quase parecer que está “innovating”.
Detalhe: apesar de parecer uma ideia muito complexa para ser “vida real” (temos que desconfiar de todo case de Cannes, né?), dá para comprar na Amazon e ver o pessoal explicando na prática como funciona.
