Nelson Neto, VP Executivo da BIG: “O futuro do CGI está menos no realismo técnico e mais na força da narrativa.”

Com mais de três décadas dedicadas à animação e ao CGI, Nelson Neto acompanhou de dentro a transformação de um mercado que saiu do artesanal para se integrar ao ecossistema global de produção audiovisual. À frente da BIG, estúdio que hoje tem mais de 50% de sua carteira formada por clientes internacionais, ele combina repertório criativo, domínio técnico e visão estratégica para competir em projetos de grande porte dentro e fora do Brasil.

Nesta entrevista ao VoxNews, Nelson analisa as mudanças estruturais da indústria, o papel da direção de arte em um cenário cada vez mais automatizado, os limites e as oportunidades da inteligência artificial no pipeline criativo e os desafios para que produtoras brasileiras avancem em maturidade operacional sem perder identidade autoral.

VoxNews – Ao longo de mais de 30 anos de carreira, o que mudou de forma estrutural na produção de animação e CGI no Brasil e o que, na prática, continua sendo decisivo para a qualidade de um projeto?

Nelson Neto – Estruturalmente, as grandes mudanças dos últimos 50 anos no mundo foram muito profundas, e esta mudança não foi e não está sendo diferente. Saímos de um cenário artesanal de craft, com tecnologia limitada, pouca padronização e processos fragmentados, para uma indústria muito mais tecnológica e profissionalizada, integrada globalmente e com acesso a ferramentas de ponta. A criatividade se somou à tecnologia e é o melhor que temos.

Hoje o Brasil opera no mesmo ecossistema técnico de mercados maduros, com pipelines sofisticadas, times multidisciplinares e capacidade de escalar projetos complexos, e mais, temos muita bagagem e background de criação.
O que não mudou e talvez nunca mude e que nos destaca enquanto profissionais é que a qualidade final ainda depende essencialmente de talento, repertório visual e capacidade de interpretação criativa. A tecnologia viabiliza, acelera e amplia possibilidades, mas o diferencial continua sendo a sensibilidade artística, o cuidado com detalhes e a clareza de intenção desde a concepção até a finalização, dentro de um planejamento que seja capaz de viabilizar e sustentar a criação e a produção.

 

VoxNews – Em um cenário de aceleração tecnológica, como direção de arte, iluminação e olhar estético seguem sendo diferenciais competitivos frente a processos cada vez mais automatizados?

Nelson Neto – Justamente porque a tecnologia se tornou acessível, o olhar humano se tornou o diferencial. Ferramentas automatizam tarefas, mas não substituem decisões estéticas. Direção de arte, iluminação e composição são disciplinas que exigem leitura cultural, narrativa e emocional, algo que a inteligência artificial e a tecnologia ainda não podem oferecer.
Em um mundo onde “fazer” ficou mais fácil, saber o que fazer e por que se tornou o verdadeiro diferencial competitivo e o elo entre a criação e o público. E o público percebe quando existe intenção estética, coerência visual e identidade autoral. É isso que transforma um material tecnicamente bom em algo memorável com emoção.

 

VoxNews – A BIG adotou novas tecnologias para ganhar escala e agilidade sem perder a excelência visual. Onde está hoje o equilíbrio entre eficiência produtiva e sofisticação criativa?

Nelson Neto – O equilíbrio está em usar tecnologia de ponta que temos acesso para liberar tempo criativo, o que permite que os times concentrem energia onde realmente importa: criação, conceito, refinamento visual e narrativa.
Aqui na BIG, a sofisticação criativa é uma realidade que potencializa a nossa expertise. O nosso foco é na qualidade e eficiência sem nunca deixar que o cronograma ou a escala ditem escolhas estéticas pobres. A tecnologia deve servir à ideia, não ao inverso.

 

VoxNews – A IA já entrou definitivamente no pipeline do audiovisual. Como você enxerga o papel da inteligência artificial na animação e nos efeitos visuais: ferramenta de apoio, linguagem criativa ou mudança de paradigma?

Nelson Neto – A IA é, antes de tudo, uma ferramenta de apoio poderosa, uma oportunidade capaz de acelerar processos, otimizar testes, gerar variações e ampliar eficiência. Em alguns contextos, ela também começa a se apresentar como linguagem, principalmente em experimentações visuais e processos generativos.

Mas o ponto central é entender que a IA não cria sozinha e não detém, com qualidade, todas as partes do processo de criação. Ela responde a estímulos, curadoria e direção humana para eficiência de partes do processo. O verdadeiro paradigma não é tecnológico, é cultural: saber integrar a IA de forma ética, criativa e estratégica, mantendo o controle autoral e a identidade visual dos projetos sem perder o craft.

 

VoxNews – A BIG vem se consolidando também no mercado internacional. O que produtoras brasileiras precisam desenvolver para competir globalmente em projetos de grande porte?

Nelson Neto – A BIG já tem presença internacional de grande repercussão, sendo que mais de 50% dos nossos clientes são estrangeiros. Um exemplo de grande sucesso com um cliente internacional, foi o recente trabalho com a campanha vencedora de 5 prêmios apenas em 2025, Princess on Periods, da Bayer, e criada em parceria com a britânica MullenLowe. Para a BIG, além de excelência criativa, é fundamental desenvolver processos, planejamento, governança e comunicação internacional para competir globalmente. Essa presença internacional exige previsibilidade, cumprimento rigoroso de prazos, clareza contratual e capacidade de trabalhar em diferentes fusos, culturas e modelos de produção.

O talento brasileiro sempre foi reconhecido; agora o mercado exige também maturidade operacional. Quem consegue unir criatividade, tecnologia e gestão passa a competir de igual para igual com grandes estúdios globais.

 

VoxNews – Nos próximos anos, quais transformações você acredita que vão impactar mais profundamente a narrativa visual no CGI aplicado à publicidade e ao conteúdo de marca?

Nelson Neto – A principal transformação será a convergência entre tecnologia, narrativa e experiência. O CGI deixará de ser apenas uma solução visual para se tornar parte estratégica da construção de marca, criando universos, personagens e experiências contínuas.

Também veremos uma busca maior por estética autoral, misturas entre real e digital, e narrativas mais sensoriais, imersivas e emocionantes. Em um ambiente saturado de estímulos, as marcas precisarão contar histórias visualmente mais sofisticadas, relevantes e emocionalmente conectadas.

Na BIG, acreditamos que a tecnologia é meio, não fim. O diferencial continua sendo o olhar humano, a direção, a intenção estética e a arte por si só. Além disso, criatividade e eficiência não são habilidades opostas, e quando bem equilibradas, se potencializam. Da mesma maneira, a IA não substitui talento, ao contrário, é uma ferramenta que amplia possibilidades e o valor está em quem dirige a ferramenta.

O Brasil tem repertório criativo global, mas precisa continuar evoluindo em processos e gestão para escalar internacionalmente. O futuro do CGI está na narrativa, não apenas no realismo técnico.

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