Fabrício Takahashi, fundador da Ruler Studio: “Quando a criação acelera, o maior risco é perder a consistência.”

Em um cenário em que marcas operam em escala, distribuídas entre múltiplos times, plataformas e parceiros, a governança deixa de ser um tema restrito ao branding e passa a ocupar o centro da operação.

Nesta entrevista ao VoxNews, Fabrício Takahashi analisa por que consistência, controle e infraestrutura tecnológica se tornaram fatores críticos para a preservação de valor das marcas, como a inteligência artificial transforma brandbooks em sistemas vivos e porque a governança hoje representa um risco, ou um diferencial competitivo, de negócio.

 

VoxNews – Em grandes organizações, a falta de governança de marca gera retrabalho, risco jurídico e perda de valor. Por que você acredita que governança deixou de ser um tema de branding para se tornar uma questão de infraestrutura operacional?

Fabrício Takahashi – Em grandes organizações, a marca hoje se manifesta simultaneamente em dezenas de times, plataformas, parceiros, tecnologias e canais. Quando não existe governança, cada ponto de contato vira uma interpretação e isso gera retrabalho, inconsistência, risco jurídico e, principalmente, perda de valor ao longo do tempo.

 

Antes, governança de marca era resolvida com um brandbook e com controle criativo. Hoje, isso é insuficiente. A operação de marca acontece no fluxo diário: layouts sendo adaptados, mensagens sendo reescritas, campanhas sendo desdobradas, parceiros e fornecedores atuando em paralelo. Sem uma infraestrutura que organize, monitore e dê clareza a esse sistema, a marca se fragmenta.

 

Por isso, a governança deixou de ser um tema exclusivo do branding e passou a ser uma questão de infraestrutura operacional. Assim como sistemas financeiros, jurídicos ou de dados, a marca precisa de uma base tecnológica que sustente consistência, reduza risco e traga eficiência. Não é sobre controlar a criatividade, mas sobre criar as condições para que ela escale com coerência, segurança e impacto real no negócio.

 

VoxNews – Durante muito tempo, brandbooks foram tratados como documentos estáticos e pouco acionáveis. Como a IA permite transformar a governança de marca em um sistema vivo e operacional no dia a dia das empresas?

 

Fabrício Takahashi – A IA permite que a governança de marca deixe de ser um documento consultivo e passe a operar como um sistema vivo. Em vez de depender da leitura e interpretação humana de um brandbook, a inteligência artificial transforma diretrizes em regras ativas, capazes de orientar decisões no dia a dia.

 

Na prática, isso significa validar tom de voz, linguagem e consistência visual em tempo real, e acelerar fluxos de aprovação. A marca deixa de ser algo que se consulta ocasionalmente e passa a estar presente no momento da criação e da execução. Assim, a governança deixa de ser um esforço manual para funcionar como infraestrutura contínua, acompanhando a velocidade e a complexidade das organizações atuais.

 

VoxNews – A Ruler promete reduzir em até 80% o tempo gasto com checagens de conformidade. O que isso muda, na prática, para times de marketing, criação e jurídico dentro das organizações?

 

Fabrício Takahashi – Reduzir em até 80% o tempo gasto com checagens de conformidade muda profundamente a dinâmica interna das organizações. Para marketing e criação, significa menos retrabalho, menos gargalos de aprovação e mais tempo dedicado à estratégia, criatividade e resultado. A conformidade deixa de ser um freio no processo e passa a acontecer de forma quase invisível, no fluxo da produção.

 

Para o jurídico, o impacto é igualmente relevante. Em vez de atuar de forma reativa, revisando peças uma a uma, o time passa a contar com camadas preventivas de governança, reduzindo riscos e intervenções de última hora. No conjunto, isso gera organizações mais ágeis, com decisões mais seguras e uma operação de marca que escala sem perder controle.

 

VoxNews – Diferente do uso da IA para criação, a Ruler atua no campo do controle e da consistência. Por que esse talvez seja hoje o uso mais estratégico da inteligência artificial para marcas globais?

 

Fabrício Takahashi – Porque à medida que a criação se acelera, o risco de fragmentação também aumenta. Marcas globais hoje produzem em escala, com múltiplos times, mercados e parceiros atuando simultaneamente. Nesse cenário, o maior desafio não é criar mais, mas criar com coerência.

 

Por isso, o uso mais estratégico da IA começa pelo controle e pela consistência. É nessa base que a tecnologia consegue operar melhor do que o humano, monitorando volume, variação e velocidade em tempo real. A partir dessa infraestrutura, a criação assistida por IA passa a fazer sentido. Na Ruler, estamos justamente testando esse próximo passo: usar a inteligência artificial também como apoio criativo, mas sempre ancorada em regras claras de marca. Criar com IA só gera valor quando existe governança suficiente para garantir que escala e criatividade não diluam a identidade da marca ao longo do tempo.

 

VoxNews – Em um cenário de aceleração e fragmentação extrema, você acredita que marcas que não tratarem governança como prioridade estratégica assumirão um risco real de negócio e não apenas de comunicação?

 

Fabrício Takahashi – Sim. Hoje, não tratar governança de marca como prioridade estratégica é assumir um risco real de negócio, não apenas de comunicação. Em ambientes altamente acelerados e fragmentados, a marca influencia diretamente confiança, tomada de decisão, eficiência operacional e até exposição jurídica.

 

Quando a governança falha, os impactos aparecem em retrabalho, inconsistência, ruído reputacional e perda de valor, muitas vezes de forma silenciosa e cumulativa.

 

Marcas fortes não se sustentam apenas por boas campanhas, mas pela capacidade de se expressar com clareza e coerência em escala. Ignorar isso é permitir que a marca se dilua no próprio crescimento. Em um mercado onde velocidade virou padrão, governança deixou de ser proteção estética e passou a ser um ativo estratégico para preservar valor, reduzir risco e garantir longevidade do negócio.

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