Bárbara Bárcia e Fernanda Prestes, sócias da FLUXA Filmes: “O olhar feminino que conecta documentário, publicidade e inovação”

Com um DNA nascido no documentário e uma trajetória marcada por narrativas sensíveis e potentes, a FLUXA Filmes vai se consolidando como uma das produtoras mais inovadoras e representativas do audiovisual brasileiro. Fundada e liderada por Bárbara Bárcia e Fernanda Prestes, a empresa se destaca por reunir equipes majoritariamente femininas e por promover novos talentos, atuando tanto em entretenimento e TV quanto em publicidade e branded content.

Em seis anos de atuação, a produtora firmou parcerias com marcas como Corona, Spotify, Budweiser, Rock in Rio, L’Oréal Paris, Stella Artois, Telecine, Oi, Guaraná Antarctica, C&A, TV Globo e Nike, além de conquistar prêmios e reconhecimento com projetos que unem linguagem documental e propósito de marca. Entre os mais recentes estão a campanha digital de “Vale Tudo”, criada pela Droga5 e premiada no Festival do Clube de Criação 2025, e a campanha de Havaianas protagonizada por Fernanda Torres, em parceria com a GALERIA.ag.

Na conversa a seguir, Bárbara e Fernanda falam ao VoxNews sobre o crescimento da FLUXA, o impacto de uma estrutura de produção centrada em mulheres, o papel das produtoras independentes no branded content e os desafios de expandir a presença brasileira no mercado global, mas sem perder o olhar humano que sempre guiou suas histórias.

VoxNews – A FLUXA começou com um DNA documental forte e hoje também atua com grandes marcas e campanhas premiadas. Como essa transição impactou a forma de contar histórias dentro da produtora?

Bárbara Bárcia e Fernanda Prestes – Nossa principal expertise sempre foi contar histórias e encontrar a melhor forma de entregar o conteúdo para o público. Quando abrimos nossa vertical de publicidade, levamos junto nosso olhar sensível e autêntico do documentário, mas o adaptamos para novas linguagens e formatos.

Hoje, trabalhamos para que as campanhas traduzam a essência da marca com mensagens rápidas, de impacto, e que estejam de acordo com o meio onde serão consumidas. Um bom exemplo é a última campanha de Havaianas, na qual produzimos e assinamos a direção do digital. O filme teve um roteiro próprio, criado pela GALERIA.ag, e por isso trouxemos outra linguagem de câmera e tom, fugindo da tradicional adaptação de um filme de TV para o formato vertical. Também entregamos conteúdo para o TikTok captados diretamente do celular, com linguagem nativa para a plataforma.

O que muda nisso tudo é nossa capacidade de adaptação para criar nesses diferentes formatos, montando a equipe ideal para contar aquela história. Nossas produções são formadas majoritariamente por mulheres e por talentos escolhidos conforme o perfil de cada projeto.

VoxNews – A FLUXA trabalha majoritariamente com mulheres em cargos técnicos e de liderança. Que mudanças práticas esse modelo traz para os sets e para a cultura de produção?

Bárbara Bárcia e Fernanda Prestes – Quando a gente se propõe a fazer diferente do tradicional, encontra novas formas de colaboração e, consequentemente, novos resultados. A ideia de trabalhar com mais mulheres nasce do desejo de trazer inovação, porque promovemos novos olhares para as narrativas. Ao longo das produções, tanto em entretenimento quanto em publicidade, também fomos percebendo o impacto disso com as equipes nos bastidores, especialmente na comunicação. É comum ouvirmos colaboradores comentarem sobre a escuta e harmonia dos sets, o que para nós é um sinal da mudança acontecendo. Cada projeto é único, e, independente do desenho da equipe, se torna uma oportunidade de fortalecer a nossa cultura de produção, que encoraja trocas com transparência e respeito.

VoxNews – Vocês estiveram em Cannes e no programa Match Me! de Locarno. Que oportunidades e desafios surgem quando uma produtora brasileira busca se posicionar no mercado global de cinema e entretenimento?

Bárbara Bárcia e Fernanda Prestes – 2025 foi o ano de expansão internacional para a FLUXA. Como estamos com dois projetos de longa-metragem de ficção em desenvolvimento e em busca de coprodutores, o posicionamento no mercado internacional foi uma estratégia essencial. Participar de eventos como Cannes e do Match Me!, em Locarno, nos abriu a oportunidade de dialogar com produtores do mundo todo. No nosso caso, a parceria com o Cinema do Brasil foi fundamental para estabelecer essas conexões. Fomos em busca tanto de colaborações criativas quanto de outras possibilidades de investimentos que complementam nossos meios de produção aqui no Brasil. Essa expansão nos traz o desafio de navegar outros modelos jurídicos e de produção, uma vez que cada país tem seus próprios mecanismos de incentivo. Nosso foco tem sido encontrar essas convergências, seja nas temáticas, em um momento de crescente interesse pelas narrativas brasileiras, seja nos negócios, construindo pontes que fortaleçam o audiovisual de forma global.

VoxNews – Nos últimos anos, o branded content se consolidou como um território criativo relevante. Como vocês enxergam o papel das produtoras independentes nesse espaço, entre as demandas das marcas e a linguagem do entretenimento?

Bárbara Bárcia e Fernanda Prestes – Como uma produtora que vem do entretenimento e do conteúdo documental, o branded content é tudo o que mais gostamos de fazer quando pensamos em trabalhar com marcas. A gente observa que as próprias marcas estão cada vez mais valorizando histórias reais e impactantes para se conectar com seu público. Esse formato permite que produtoras independentes como a FLUXA colaborem com mais liberdade criativa com marcas e agências, unindo nossa experiência em formatos e linguagens do entretenimento à mensagem que eles desejam transmitir. Já produzimos, por exemplo, reality de moda para a C&A e o Rock in Rio, documentário sobre um rapper para o Spotify e um curta doc de futebol feminino para a Nike. Esse território também abre espaço para apresentarmos ideias desenvolvidas internamente, com talentos e criativos da produtora, e que podem virar branded content. É um movimento extremamente estimulante, que torna as histórias envolventes tanto para a marca quanto para o público.

VoxNews – O sucesso do perfil da Maria de Fátima em Vale Tudo mostra como a ficção pode extrapolar as telas. Que lições a FLUXA tira desse case sobre a convergência entre narrativa, engajamento e comportamento digital?

Bárbara Bárcia e Fernanda Prestes – Foi muito divertido participar desse projeto com a Maria de Fátima e seus fatymores! A Droga5 foi responsável por toda a estratégia criativa envolvendo o perfil da personagem de Vale Tudo nas redes sociais, e, como produtora, estávamos ao lado do time para garantir que a entrega fosse o mais fiel possível. O case mostra como uma estratégia bem pensada consegue engajar públicos que antes não se conectariam ao produto. Hoje, o público já espera que a novela invada outros espaços do cotidiano, mas, no caso da Maria de Fátima, o timing estratégico surpreendeu: a personagem postava na novela e, na mesma hora, o vídeo ia para o Instagram. O público ficava louco! Foi aí que vimos o poder de uma comunidade ativada em múltiplas janelas. A TV aberta gerava a conversa inicial, e o digital prolongava e aprofundava esse engajamento. Esse projeto é a prova de que podemos ser disruptivos mesmo com formatos tão tradicionais quanto nossas novelas.

VoxNews – Com a retomada dos investimentos em cultura e o avanço da IA e da automação, quais tendências vocês acreditam que vão definir o futuro das produtoras independentes no Brasil?

Bárbara Bárcia e Fernanda Prestes – Estamos vivendo um momento de transformação que acontece de forma muito acelerada e cujo potencial ainda está sendo testado. Acreditamos na IA como ferramenta de apoio ao processo criativo, mas não como substituta dele, e prezamos pela transparência em relação ao seu uso. Atualmente, já tivemos experiências na fase de pré-produção, com pesquisa de imagens e referências, construção de monstros e layouts, e usamos também para testar ideias com mais rapidez, para que os clientes possam visualizar de forma mais concreta uma proposta. Porém, temos cuidado e preocupação com a questão de direitos autorais e estamos acompanhando esse debate nos meios de comunicação e em encontros do mercado. Hoje acreditamos na IA como uma ferramenta que combina a tecnologia ao nosso olhar criativo, potencializando algo que é único do humano: a capacidade de criação.

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